terça-feira, 22 de julho de 2014

O olho mais azul...


"A minha mãe estava sempre ao meu lado, uma mulher frágil e feroz, ensinando-me a recear o mundo e os seus perigos inumeráveis.

-  A realidade é dolorosa e imperfeita -, dizia-me: é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos.Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

[...] Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos".

(José Eduardo Agualusa, In: O vendedor de passados)


Outro dia li um dos livros que mais mexeram comigo até hoje: “O olho mais azul”, da Tony Morrison, uma escritora norte-americana. A história é narrada por uma adolescente que apresenta as suas lembranças sobre uma colega de infância, a Pecola. Qualquer hora registro aqui um fragmento.

Pecola é uma garota negra, de pele bastante escura,  feia - assim vista por todos à sua volta -, de origem pobre, que compõe uma família estraçalhada pela vida, por uma variedade de pavores que se pode viver. O nome do livro tem origem no desejo de Pecola de ter olhos azuis. Ela apresenta esse desejo a um místico charlatão que lhe promete satisfação desde que ela lhe faça um favor. A menina mata um cachorro sem saber o que fazia. Enlouquece...

Olhos azuis são muito significativos. Dizem, silenciosamente, mais do que uma coletividade inteira teria coragem de admitir. Pecola queria ser bonita, não aguentava mais ser rechaçada, ser o objeto do riso e do nojo alheios, queria olhos azuis. Os tais olhos que lhe custaram a lucidez e que refletem em nós, os hipócritas, a mesquinharia e a miséria. Talvez, antes, o mundo já lhe tivesse aleijado, tirado sua esperança. Muito antes de ela chegar com a sua escuridão impregnada ao casco.

Concentrar meu pensamento no desejo de ter olhos azuis me deixa extremamente sentida. Vejo Pecola indo ao encontro do homem - de seu redentor - lhe pedir um par de olhos azuis e me dói uma dor tão cheia... Uma vontade imensa de chorar. Choro de lágrimas pesadas, amargas. O peso dos séculos de frustrações da humanidade. Choro de lamento por nossa fraqueza. Por nossa solidão. Quanta solidão havia em Pecola! Quanta solidão há. Depois, sinto raiva. Muitas raivas. Sinto o meu corpo e os meus olhos ferverem e tantas raivas querem explodir! Como me senti próxima dessa história! De Pecola e de Cláudia, a narradora. No fundo, eu também quero olhos azuis. Silenciar a minha história confere potência  a esses olhos azuis. Comprei um par de lentes coloridas e, de repente, o mundo parecia melhor. Grande mentira. Embora me pese a consciência, fui feliz assim, vivendo como Olímpia, a boneca de madeira. Louca.

Eu tenho vontade de dizer a Pecola algo consolador, mas todas as palavras são suspeitas. Eu tenho de agir. Eu daria a essa menina um afago em sua cabeça, talvez, jamais tocada com carinho, porque cabelos crespos são temidos. [Não se pode tocar nos cabelos crespos. Nem nos de Pecola nem nos de ninguém. Eles afugentam, machucam, embaraçam. A cabeça de uma fêmea negra não se toca. É preciso muita coragem para isso!] Eu afundaria os cinco dedos de minha mão naquele ninho de cabelos crespos, sentindo a aspereza de cada fio,  sentindo cada pequeno nó, sentindo a ousadia de cada frizo e cantaria em silêncio uns versos sem palavras, cheios de agrado, criados só para dizer dela, até que dormisse e sonhasse com os seus olhos azuis. Pecola não podia ter existido por tanto tempo sem um carinho na cabeça. Não deveria ser possível existir alguém que vivesse assim...

A loucura responde a muitos incômodos. Sinto-me próxima dela cada vez mais. Durante muito tempo confiei em minha inteligência como redenção desta pele em que habito. Tenho vontade de rir agora dizendo isso e pensando na asneira que é isso. Olhos azuis podem muito mais. Pecola não estava errada, sob nenhum aspecto, em querê-los. Lembro de uma vez em que um tombo me derrubou e eu permaneci desacordada por alguns segundos. Caí de cabeça. Assim que voltei a mim, em desespero, fui conferir se continuava lendo e entendendo o que estava escrito. Estava lúcida e inteligente, como sempre. Com a leitura e a escrita em punho, meus olhos azuis, talvez. Ingênua. Coisa de menina.  Pecola...

Não há redenção para ninguém. O entendimento é seletivo, algumas pessoas são seletas e outras, selecionadas. As condenações já foram distribuídas desde o início e são irremediáveis...

Os olhos azuis de Pecola dão a ela a chance de dar o troco... Será? Adianta? Eu acredito na efetividade disso?

sábado, 28 de junho de 2014

Hormônios, hienas e bruxas...

Ultimamente tenho me sentido um daqueles bonecos-jogadores do pebolim: chutando, chutando, chutando uma bola desvairada, de forma inconsciente. Girando de cabeça para baixo a todo instante e emergindo novamente para girar outra vez e chutar para toda parte. Minhas emoções estão um vai e vem. Meus hormônios riem de mim, na certa.

O ímpeto de coragem que brotou em mim no ano passado se foi e há só rastro dele. Sou a covarde de sempre com ligeiros delírios de coragem. A mulher de ação que por ventura vejo em mim, às vezes, para certas situações, está enfaixada como uma múmia. Não consigo me mover. Sinto-me completamente enfastiada, enauseada.

As palavras não adiantam. Não resolvem. Não me consolam. As palavras, mais uma vez, significam nada. Às vezes, sinto tanto ódio das palavras, a ponto de desejar que ficássemos todos mudos para sempre. Se tivesse talento e conhecimento, escreveria o meu ensaio sobre a surdez.  Tanto falatório em toda parte! Somos um bando de papagaios repetidores das mesmas conversas. Consciência de papagaios. Vozes de papagaio. Não suporto ouvir a minha voz, às vezes.

Sinto, por alguns momentos, uma vontade imensa de falar, monologo mentalmente sobre um assunto por uns trinta, quarenta minutos diretos e penso em externalizar tudo o que fiquei pensando. Quando estou para dizer, constato que não vale nada dizer coisa alguma. Não serve para nada. Neurônios desperdiçados. As palavras da vida real são inúteis. As palavras literárias, fluidas, escorregadias, fictícias, são mais firmes que as da vida real. Deter-me pensando nisso também me enfastia um pouco. Tudo é falso.

Às vezes, penso que deveria fazer um trabalho missionário, como o dos Médicos sem Fronteiras, talvez. Conviver com o sofrimento físico de muitas pessoas, com a miséria extrema, em um deserto. Curá-las, alimentá-las, consolá-las. Ater-me ao sofrimento alheio. Assim, eu ficaria sem brechas para pensar em bobagens. Eu relativizaria isso que chamo "meu sofrimento". Cultivaria o espírito, falaria menos, suportaria mais.

Meu descrédito nas palavras é antigo. Eu confio muito nas palavras, por isso, a desilusão. As palavras desequilibram o mundo, os hormônios da gente. Jogam com a gente, como no pebolim. Depois, riem de nós, desdenhosas, cínicas, como as hienas e as bruxas. Eu tenho medo de dizer muitas palavras. Já disse muita merda por aí e, bem feito, tenho sido retribuída com outras tantas merdas..

domingo, 22 de junho de 2014

Carma...

"Passei muito tempo tendo conversas imaginárias com Buddy Willard. Ele era dois anos mais velho que eu e muito preciso no que dizia, por isso sempre comprovava tudo. Quando estava com ele, tinha de me esforçar para entender o que dizia.
Essas minhas conversas imaginárias costumavam repetir o começo das conversas reais com Buddy, só que terminavam quando eu respondia alguma coisa com rispidez, em vez de ficar apenas dizendo: "Deve ser."
Agora, deitada na cama, imaginei Buddy perguntando: "Sabe o que é um poema, Esther?"
"Não. O que é", diria eu?
"Poeira."
Aí, na hora em que ele sorrisse e começasse a ficar orgulhoso, eu diria:
"Poeira, sim, como os cadáveres que você disseca. E as pessoas que você acha que está curando. Eles também são pura poeira, poeira, poeira. Só que um bom poema dura muito mais que cem pessoas juntas."
E, claro, Buddy não ia saber como responder, porque eu tinha dito uma coisa que era verdade. As pessoas são feitas apenas de poeira, nada mais, e eu não achava que cuidar daquela poeira toda fosse melhor do que escrever poemas que as pessoas lembrariam e repetiriam quando estivessem tristes ou doentes ou não conseguissem dormir.

(Silvia Plath, in: A redoma de vidro)


***************


Tenho constantemente sido colocada frente a frente com as minhas contradições. Isso sempre foi assim. Os meus sentidos hoje percebem esse duelo com mais frequência. A minha consciência está sempre a postos para essa constatação, embora às vezes eu prefira, opte mesmo, por abstrair esse tipo de informação. Como se sabe, às vezes, as mentiras ou o que é ocultado tranquilizam o sono e fica mais fácil viver. O fato é que vivo em eterna afirmação e negação do que sou, de quem sou, de quem quero ser, de quem não posso ser. Não há espelho que dê conta de me mostrar, não falta espelho pra me mostrar. Especialmente em relação à minha negritude, estou sempre sendo emparedada.
Sou negra, tenho de afirmar positivamente essa identidade. Penso nisto o tempo todo: sou uma  mulher negra que precisa vender a sua força de trabalho para viver e vivo em um mundo racista, machista e classista. Acordo e durmo pensando nisso. Estudo e trabalho pensando nisso. Relaciono-me com as pessoas pensando nisso. A experiência de ser mulher negra me impôs esta subjetividade. A minha negritude é a condição estruturante da minha consciência.  Conhecer a história do povo negro, da nação em que nasci e das demais impôs para mim, entre outras coisas,  uma certa militância, muitas vezes, vivida a contragosto. Pesa, isso.
Dia do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Almoço  em um conhecido bar de Brasília, frequentado pela classe média da cidade. Eu estava ali, achando, apesar da desconfiança de sempre, que era uma igual. Corpo coberto com as mercadorias costumeiramente aceitas pela classe média, enquadrada no estilo aceito para a ocasião, apenas as características fenotípicas do lado de fora, mas sob controle, maquiadas. No geral, eu estava me sentindo bem, nada me acusava ali de minha negritude ou, se acusava, fazia-o em voz baixa, mentalmente, é provável.
Entra uma moça no restaurante. Pedinte. Descabelada. Descalça. Barriga sobressalente de fora. Lábios imensos. Nariz imenso. Veste bermuda verde e top amarelo, afinal, era o dia do jogo do Brasil. Quem era ela? Importa? Já não se conhece esse tipo? Eu digo: era uma mulher negra. Era eu, instantaneamente, irremediavelmente. Era minha irmã. Era meu povo. Éramos todas aquela jovem. Era o sangue que circula nas minhas veias e que as entope progressivamente.
Senti-me mal. Aquele lugar estava, de repente, cheio de espelhos apontados para mim. Eu estava despida das mercadorias de agora há pouco, era o problema social nu, em pelo. Naqueles poucos minutos em que ela permaneceu ali, pedindo, humilhando-se, eu me senti arrasada. Eu não a queria ali. Eu não a queria em lugar algum. Ela depunha contra os meus estudos, o meu trabalho, as minhas reflexões, os meus esforços, a minha suposta militância. O meu direito de estar ali, entre os brancos de classe média de Brasília, sem ser acusada de minha negritude, sem ter de vestir armaduras para lutar... E ainda apresentava para todos os comensais a minha conta bancária - minhas dívidas, meu saldo, meu contracheque. Um desespero pra mim...

Eu me escondo diariamente daquela mulher. Eu não quero ser vista através dela pelas lentes alheias. Eu sinto vergonha por mim - por pensar assim - e por ela. Eu amo aquela mulher negra de top amarelo e bermuda verde, ela dá sentido à minha existência, mas a sua existência impede que eu ame a mim.


***********

As pessoas dizemos:
- Que você seja feliz.
Em algumas ocasiões, isso é dito com tanto desprezo e cinismo, que não há saída senão receber com dor, dor, dor demais.
Eu imagino um velório. Ali todos tentamos consolar uma dor infinita, com uma força descomunal. Prometemos que ela vai passar; ela não vai passar, a gente sabe. A gente sabe que não dá para medir força com um negócio desses. O tempo passa, o tempo esconde, disfarça a dor. Ela está, no entanto, sempre de butuca, em sentinela, à espreita, com os olhos secos, avermelhados e ardentes, bem abertos.
- Seja feliz!
Dizer isso não salva ninguém da dor.
Isso é uma sentença capital: empurra a gente para mais uma solidão, mais um abandono irreparável. Isso não é uma benção, uma graça, um carma: isso é a vida, sem mistificação.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Samba...




O grande poder transformador chama dor. Chama samba. Me chama: o chão de terra vermelha travestido de todas as cores, áspero, tortuoso, de onde se levantam eventuais ondas de compaixão, batuques de pandeiro. O samba também me chama. A mim, sua irmã, filha da dor. O amor me chama. Adormecida, eu ouço. Chama: o grande poder restaurador. Olha, olha longe, olha e vê:
-  O dia ainda não raiou, mas já está a caminho.


*****************
Fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra isso não há quem possa.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Batom vermelho...

"Os edifícios abandonados,
As estradas sem ninguém,
Óleo queimado, as vigas na areia,
A lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos,
Por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas

Pois no dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sozinho no mundo, sem ter ninguém,
O último homem no dia em que o sol morreu".


(O último pôr do sol, Lenine)



O sol que me persegue, que me devora e que amo. Correndo, correndo, correndo. Em busca de quê? Desejo de pisar a areia morna da praia. Imiscuir-me. Ser tomada, succionada, devolvida em mil grânulos. Vislumbres de pequenas felicidades.Rir sozinha. Depois, chorar. Olhar o céu azul. As ondas. Os pássaros em "v".A paisagem se repete e é nova.

Quanto concreto, meu Deus, nesta cidade! Meu coração é um bloco de concreto voando de paraquedas. Meus batons vermelhos estão engavetados. Uma alma triste não combina com batom vermelho. Estou tão cansada, que não sei como cheguei aqui. Tenho andado tão dentro de mim, que olhar no espelho me assusta. Viver é o susto.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Margaritas...


Há dores, enfermidades, doenças, pragas, moléstias em todo o mundo. Sim, estão em toda parte, como as mulheres. Algumas não querem ser curadas, não se deixam curar ou não são simplesmente curadas.
Há dores que são informações genéticas, não queimam à luz do sol, não mudam de pele. Há dores e enfermidades para a  gente macerar durante os dias e as noites, como fumo. Há dores das quais dependo, embora me queixe. É uma fraude, a queixa. Às vezes, a minha fraude - isto que sou eu inteira - me esbofeteia a cara e dói mais.

Para todas as dores, margaritas. Há deliciosas margaritas brancas e amarelas. Deliciosas margaritas bordejadas de mar e maresia.Um mundo coberto de canas não alivia as dores. De margaritas, sim, para o deleite das damas, das almas, dos desamados.

*************

Saudade.


************

As crianças trabalham e morrem.Crianças como eu fui um dia. Como às vezes eu sou, por mais que resista.

************

"Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão
menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Raçao diária de erro, distribuída em casa".

(A flor e a náusea - meu poema favorito -, Carlos Drummond de Andrade)


Margarita ou margarida?

Há dores, enfermidades, doenças, pragas, moléstias em todo o mundo.
Sim, estão em toda parte, como as mulheres.
Algumas não querem ser curadas, não se deixam curar ou não são simplesmente curadas.
Há dores e enfermidades  que é pra a gente macerar durante os dias e as noites, como o fumo.
Há dores das quais eu dependo, embora me queixe.
É uma fraude, a queixa.
Às vezes, a minha fraude - isto que eu sou inteira - me esbofeteia a cara e dói mais.
Para todas as dores, margaritas. 
As deliciosas margaritas brancas e amarelas.
As deliciosas margaritas bordejadas pelo mar.
Um mundo coberto de cana, não.
De margaritas, be

terça-feira, 20 de maio de 2014

Mil novecentas e poucas vidas...

em mim 
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando 
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

(Contranarciso, de Leminski)

*************
Quantos silêncios cabem num sorriso?
Vinte e oito dentes externos.
Quantas palavras calam um sorriso?
Um dente interno e outros tortos do lado de fora.
Quanto um sorriso cobra pra sorrir?
A conta que ninguém de fora paga.
É minha, toda minha, há mil novecentas e poucas vidas...

sábado, 17 de maio de 2014

Fotossíntese

Luz do sol,
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha, em graça , em vida, em força, em luz
Céu azul, 

Que venha até onde os pés
Tocam na terra e a terra inspira e exala seus azuis

Reza, reza o rio,
Córrego pro rio, rio pro mar
Reza correnteza, roça a beira, doura areia
Marcha um homem sobre o chão
Leva no coração uma ferida acesa
Dono do sim e do não
Diante da visão da infinita beleza
Finda por ferir com a mão esta delicadeza 

A coisa mais querida,
A glória da vida...


Luz do sol

(Letra de Caetano Veloso, interpretação de Gal Costa)

***********

Ninguém é naturalmente especial.
Especial é o modo como a existência se configura, de modo que a gente viva as situações que vive.
Especiais são as descobertas que a experiência de ação no mundo fazem emergir.
Especiais são as situações onde pisamos todos os dias. Onde, não raro, escorregamos, afundamos, nos sujamos e desfalecemos tantas vezes.
Especiais são os momentos que produzem em nós sorriso e que, logo adiante, arrancam-no, com uma voracidade desproporcional.
Especiais são os encontros para os quais somos empurrados ou para os quais nos encaminhamos por gosto e vontade .
Os encontros, às vezes, se desviam do traçado original e, facilmente, são chamados desencontros.
Consideradas assim, sem ênfase, as coisas são tristes, diz o poeta.
E, no entanto, são tão especiais sendo o que são, o que foram.
Toca fundo em mim esse momento da existência.
O meu sorriso já não está tão claro quanto esteve há um ano.
Nisso, sim, não há nada de especial.
Mudo amanhã de pasta de dentes...




sexta-feira, 16 de maio de 2014


Não me considero supersticiosa, mas odeio anos pares.
Tudo embola, a vida não fica fácil.
Neste ano, antes do mês seis, meu coração já morreu as sete vidas a que tinha direito.
O álcool lhe tem trazido de volta.
Como é ruim voltar sabendo que o fôlego pode outra vez faltar, a qualquer hora. Na hora de dormir, quem sabe. Eu, que gosto de dormir porque sei que se trata de um período de sono e só, me apavoro.
Providenciar uma adega para a casa, eis o que me acomete.
Tento me agarrar à poesia, cuja promessa é suspender os pés do chão por alguns instantes.
Mas são tão curtos e a gravidade, tão grosseira, que termino derrubada e arranhada por garras de onça.
Talvez a poesia só funcione assim.
Tudo podia ser simples como um bom dia.
Mas desejar tenha um  bom dia nunca é fácil, não é fácil. Há bons dias ensanguentados, sobre os quais poesia nenhuma quer falar.
Os dias, eu os mastigo, ultimamente, como a chiclete de isopor.
Mas é tão bom olhar os pássaros e imaginar o que pensam de nós, homens-mulheres, mulheres-homens, olhando de cima, do alto, como Deus.
Crianças... é o que devem pensar. Nesse faz de conta, nesse pique-e-pega, esconde-esconde,
Eu quero ser envolvida por uma asa selvagem de pássaro, com a penugem  laranja da cor de certos Sóis.

****************
Pensando em palavras que acho bonitas: em primeiro lugar, imiscuir-se. Outra: estilhaços.

****************

Alma-de-gato...

Ultimamente, tanta vontade de escrever, de dizer as coisas, de gritar todas elas.
Logo, em cima desse desejo, ao mesmo tempo, uma desconfiança das palavras, da utilidade das palavras, da fraqueza das palavras.
Ao mesmo tempo, em cima dessa incredulidade, logo, uma confiança na poesia, uma vontade de poesia, de saber toda a poesia.
Em cima dessa avidez, ao mesmo tempo, logo, uma agonia, um desespero, a intuição degradante da ausência de sentido das coisas, das palavras, da poesia.
E a beleza ainda existe. Como é bonito o sorriso do sol!
O sorriso do dia, do Sol aberto, dourado, quente.
O sol duro sobre a gente.
Das palavras que usamos para descrever o Sol, todas as vezes,
eu gosto.
O Sol, ele arde... E basta.

*********
Quando a gente se sente uma bruxa,
Feia, nariguda, gorda, craquelada e despenteada,
Entediante, desinteressante e má, mais do que o normal,
Não adianta o astrólogo quem quer que seja dizer o contrário.

*********

 Um passarinho
volta pra árvore
que não mais existe

Meu pensamento
voa até você
só pra ficar triste

(Leminski)





domingo, 20 de abril de 2014

Meio fio...

"Um homem partira de uma aldeia tcheca para fazer fortuna. Ao fim de 25 anos, rico, regressara, casado e com um filho. A mãe dele e a irmã tinham um hotel na sua aldeia natal. Para fazer-lhes uma surpresa, deixara a mulher e o filho em outro estabelecimento e fora visitar a mãe, que não o reconheceu quando ele entrou. Por brincadeira, tivera a ideia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o seu dinheiro. De noite, a mãe e a irmã assassinaram-no a marteladas e atiraram o corpo no rio. Na manhã seguinte, a mulher viera ao hotel, e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe se enforcou.A irmã atirou-se num poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado, era inverossímil. Por outro lado, era natural. De qualquer forma, achava que o viajante merecera o que aconteceu até certo ponto, e que nunca se deve brincar assim.

Assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura da minha ocorrência e a alternância da luz e da sombra, o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acaba perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam sentido para mim.

Quando um dia, o guarda me disse que eu estava lá há cinco meses, acreditei, mas não compreendi. Para mim, era sempre o mesmo dia que se desenrolava na minha cela, e era sempre a mesma tarefa, que eu perseguia sem cessar. Nesse dia, depois de o guarda ter saído, olhei-me na minha bacia de ferro. pareceu-me que a minha imagem ficava séria, mesmo quando tentava sorrir para ela. Agitei-a diante de mim. Sorri e e ela conservou o mesmo ar severo e triste. O dia acabava e era a hora de que não quero falar, a hora sem nome, em que os ruídos da noite subiam de todos os andares da prisão num cortejo de silêncio. Aproximei-me da janela e, à última luz, contemplei uma vez mais a minha imagem. Continuava séria, e que há de espantoso nisso, se nesse instante eu também estava sério? Mas ao mesmo tempo e pela primeira vez nos últimos meses,ouvi distintamente o som da minha voz. Reconhecia-a como a que ressoava há longos dias nos meus ouvidos e compreendi que, durante este tempo, falara sozinho. Lembrei-me, então, do que dizia a enfermeira no enterro de mamãe. Não, não havia saída, e ninguém pode imaginar o que são as noites nas prisões".

(Albert Camus, In: O estrangeiro)

Às vezes me sinto tão cansada, que tenho vontade de sair por aí, sentar em um desses meio fios, no meio da rua, qualquer uma, sob o sol quente da tarde, e chorar. Chorar enquanto o sol me queima, me transforma toda em cinzas. E que não reste nada, além de cenário. Meio-fio recém pintado de branco com uma porção pequena, concentrada, de cinzas quentes, úmidas, murchas. Por toda parte, sol aberto, amarelo, dolorido, lindo. E o som dos pássaros, indiferentes. Estes, sim, sinceros. 


*******
Música dos últimos tempos:
https://www.youtube.com/watch?v=2kRMdzfFf8M

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pra você eu sempre direi sim...



"A primeira forma do amor sexual como paixão que apareceu na história e como paixão possível para qualquer pessoa (pelo menos das classes dominantes), como forma suprema de impulso sexual - o que constitui precisamente seu caráter específico - essa primeira forma, o amor cavalheiresco da Idade Média, não foi de modo algum amor conjugal. Pelo contrário, em sua forma clássica, entre os provençais, ruma abertamente para o adultério, que é cantado por seus poetas. A flor da poesia amorosa provençal são as albas, em alemão Tagelieder, cantos do alvorecer. Pintam com cores vivas como o cavaleiro deita com sua amada, mulher de outro, enquanto lá fora fica o vigia que o chama quando começa a clarear a madrugada (alba), para que possa escapar sem ser notado".

 (Engels, In: A origem da família, da propriedade privada e do Estado)


"Ela disse, te amo, vamos viver juntos.
Perguntei, não está tão bom assim? Cada um no seu canto, nos encontramos para ir ao cinema, passear no Jardim Botânico, comer salada com salmão, ler poesia um para o outro, ver filmes, foder. Acordar todo dia, todo dia, todo dia juntos na mesma cama é mortal.
Ela respondeu que Nietzsche disse que a mesma palavra amor significa duas coisas diferentes para o homem e para a mulher.
Para a mulher, amor exprime renúncia, dádiva. Já o homem quer possuir a mulher, tomá-la, a fim de se enriquecer e reforçar seu poder de existir.
Respondi que Nietzsche era um maluco.
Mas aquela conversa foi o início do fim.
Na cama não se fala de filosofia".

(Rubem Fonseca, Ela, In: Ela e outras mulheres)




O amor é um devasso mesmo.
Alguém já disse isso?
Com certeza.
Estou devassada de amor.
Pelo amor. Em amor. Com amor. Pré e pós-amor.
O amor não está no coração, está nos intestinos.
O coração parte. Os intestinos param.
As palavras precisam ser evacuadas.

..................................................................................................
Falando dele, eis um novo (já velho) amor:

http://www.youtube.com/watch?v=6C-rLKiSS_o