"Um homem partira de uma aldeia tcheca para fazer fortuna. Ao fim de 25 anos, rico, regressara, casado e com um filho. A mãe dele e a irmã tinham um hotel na sua aldeia natal. Para fazer-lhes uma surpresa, deixara a mulher e o filho em outro estabelecimento e fora visitar a mãe, que não o reconheceu quando ele entrou. Por brincadeira, tivera a ideia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o seu dinheiro. De noite, a mãe e a irmã assassinaram-no a marteladas e atiraram o corpo no rio. Na manhã seguinte, a mulher viera ao hotel, e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe se enforcou.A irmã atirou-se num poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado, era inverossímil. Por outro lado, era natural. De qualquer forma, achava que o viajante merecera o que aconteceu até certo ponto, e que nunca se deve brincar assim.
Assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura da minha ocorrência e a alternância da luz e da sombra, o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acaba perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam sentido para mim.
Quando um dia, o guarda me disse que eu estava lá há cinco meses, acreditei, mas não compreendi. Para mim, era sempre o mesmo dia que se desenrolava na minha cela, e era sempre a mesma tarefa, que eu perseguia sem cessar. Nesse dia, depois de o guarda ter saído, olhei-me na minha bacia de ferro. pareceu-me que a minha imagem ficava séria, mesmo quando tentava sorrir para ela. Agitei-a diante de mim. Sorri e e ela conservou o mesmo ar severo e triste. O dia acabava e era a hora de que não quero falar, a hora sem nome, em que os ruídos da noite subiam de todos os andares da prisão num cortejo de silêncio. Aproximei-me da janela e, à última luz, contemplei uma vez mais a minha imagem. Continuava séria, e que há de espantoso nisso, se nesse instante eu também estava sério? Mas ao mesmo tempo e pela primeira vez nos últimos meses,ouvi distintamente o som da minha voz. Reconhecia-a como a que ressoava há longos dias nos meus ouvidos e compreendi que, durante este tempo, falara sozinho. Lembrei-me, então, do que dizia a enfermeira no enterro de mamãe. Não, não havia saída, e ninguém pode imaginar o que são as noites nas prisões".
(Albert Camus, In: O estrangeiro)
Às vezes me sinto tão cansada, que tenho vontade de sair por aí, sentar em um desses meio fios, no meio da rua, qualquer uma, sob o sol quente da tarde, e chorar. Chorar enquanto o sol me queima, me transforma toda em cinzas. E que não reste nada, além de cenário. Meio-fio recém pintado de branco com uma porção pequena, concentrada, de cinzas quentes, úmidas, murchas. Por toda parte, sol aberto, amarelo, dolorido, lindo. E o som dos pássaros, indiferentes. Estes, sim, sinceros. *******
Música dos últimos tempos:
https://www.youtube.com/watch?v=2kRMdzfFf8M

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