
Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?
Carlos Drummond de Andrade in Confissão
Ressignificar.
Sem meias voltas, como agora deve ser.
Eu me sinto uma otária. Eu ultrapassei o meu limite. O que me foi dado.
Eu tive vontade de xingar e espernear: palavras baixas, violências, coisas chulas! Tratar-me como uma santa, “pobre santinha que me ama, assim, grátis, como nenhuma outra”. Não perceber a mulher que havia em mim, isso me deixou furiosa. Algum dia, até pensei que tivesse ouvido o som das palavras que escrevi correndo com pressa para fora das minhas veias de mulher: sussurros, soluços, frases ambíguas.
Minha novela.
As falas dele sempre foram curtas; tão curtas, tão curtas, que é de rir do trabalho imaginativo que empreendi.
Talvez eu estivesse precisando tanto amar, que se me acontecesse uma barata eu a engoliria.
Minha epifania: a barata-homem.
Eu conheço desde cedo a via por onde devo trafegar: mesmo no escuro.
Mesmo assim, eu me joguei onde fui parar.
Tem um trator esmagando a minha carne. Vou me transformando em asfalto todos os dias; as hesitações, os pedidos de perdão, as esperanças, tudo está comprimido e explode aos poucos sob a força dos pneus.
No final, tudo é simples.
Não há o que ressignificar.