quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Impedimentos

Escrevi em 19/04/2016, 12 dias após a morte de minha vó.
A minha vó, Dona Raimunda, só pôde frequentar a escola até a quinta série do Ensino Fundamental, mas valorizava muito a Educação, o estudo e a escola. Abandonou o ensino formal porque morava em Caxias, uma cidade do interior do Maranhão e, após a quinta série, seria necessário transferir-se para uma escola distante de onde residia. A mãe não consentiu, pois a menina era sua ajudante na pequena mercearia que a família mantinha e o seu período de ausência comprometeria o bom funcionamento do comércio. Sua irmã, Terezinha, que era a filha caçula, contou com a generosidade da mãe e conseguiu se formar professora normalista. Minha vó sentia muito orgulho da irmã, que, de fato, foi reconhecida e premiada na cidade natal por ser uma excelente professora.
Embora sem ter tido chance semelhante, o gosto pelo estudo permaneceu aceso em minha vó e ela procurou transferi-lo para os filhos, que, à custa de seu trabalho duro já em Brasília, puderam aproveitar a infância e a adolescência estudando, e não trabalhando, como ocorreu a ela. Exceto pelo filho que adotou aqui, os outros se formaram no nível superior e os netos seguem o mesmo caminho.
Eu estive muito próxima de minha vó durante grande parte de minha vida e dela recebi bastante estímulo para estudar. Ela dizia com frequência frases como: "minha filha, quem estuda vence", "Kessinha, não se vence sem estudo", " força e coragem para estudar, siá", e, com o salário de sua aposentadoria, fez o que foi possível a ela para incrementar os meus estudos e/ou facilitá-los. A minha vó participou do primeiro e do último evento de formatura que eu vivenciei. Neste último, foi quando graduei-me professora de Língua Portuguesa e Respectiva Literatura. Tenho já quase dez anos de formação e há três venho lecionando de forma ininterrupta na rede pública de ensino do DF. Não posso me comparar à professora que minha tia foi, mas me identifico com as do tipo que gostam do que fazem e, modéstia à parte, procuro exercer bem o ofício, embora isso não venha ao caso. O fato é que minha vó tinha também um certo orgulho da netinha professora, embora haja na família uma neta doutora, pela qual, com razão, ela também se sentia muito orgulhosa.
Minha vó foi hospitalizada no fim do mês de março e faleceu há menos de quinze dias. Nesse período, no país, os ânimos de certos segmentos da população estavam inflamados, por um lado, pelo temor e, por outro, pelo clamor do impeachmant da presidenta Dilma. Ontem, a Câmara dos deputados decidiu pelo impedimento. Hoje, nas redes sociais, vi uma série de xingamentos e palavras ofensivas contra a presidenta, o PT, os parlamentares que votaram de forma contrária ao impedimento, os artistas e intelectuais que discordam disso. Palavras grotescas e odiosas, várias vezes, carentes de justificativa válida, se é que se pode dizer assim, como se um único palavrão pudesse sintetizar e desqualificar simultaneamente toda a história de vida da mulher que foi escolhida pela maioria da população a primeira presidenta do país, por duas vezes consecutivas. Uma mulher que, na verdade, tem muito mais história de mulher, de filha, de mãe, de avó, de estudante, de trabalhadora, de militante política... do que de presidente do país.
Como o luto por minha vó está recente, não pude deixar de associar tudo o que está ocorrendo e a atmosfera que os acontecimentos têm gerado à minha vó, à sua história, à sua fé na Educação, no estudo, na escola. Sinto ainda mais que é preciso aproveitar o exercício do ofício para educar as pessoas. Educar em um sentido que permita às pessoas apropriarem-se da história da nação como conteúdo visceral, integrante de cada um, e não como conteúdo estático, folhas do livro didático. Educar de um jeito que se leia essa história como se a estivéssemos tateando, sentindo na carne cada grânulo, cada pedra, cada foice, para que venha à tona, de fato, identificação e incômodo. Educar em um sentido que permita a interiorização da alteridade; que desperte a humanização das ações e do pensamento; que suscite o respeito às pessoas frente a elas e frente a qualquer dispositivo digital; que convoque o respeito e o diálogo, e não a violência, a agressão.
Herdei de minha vó o gosto pela Educação, o estudo, a escola. Mas o que eu espero mesmo é que esse interesse seja motivo e veículo de humanização para mim e para os estudantes que eu encontro todos os dias nas salas de aula e, principalmente, fora dali, nas interações da vida real e digital. A minha vó não pôde avançar seus estudos formais, como desejou, mas foi, para a família, uma pessoa notável por seu entendimento do mundo, por sua compreensão da potência transformadora da Educação. É evidente que não é qualquer educação que carrega essa potência. Há no mundo, e bem perto da gente, outras espécies de "educação" que norteiam  práticas deploráveis dos seres humanos e que provocam lástima e vergonha para os que as assistem ou delas são vítimas. O sentimento atual, para mim, em razão do falecimento dessa vó inspiradora, é de desolação. O mesmo que sentem muitos ao meu redor após a vitória do apelo pelo impedimento da presidenta Dilma. Curiosamente, o país que enaltece a Educação como solução de seus problemas sociais, assiste de camarote à expulsão da presidência daquela que adotou como lema de governo a fórmula-promessa: "Brasil: pátria educadora".

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Binóculo


Eu me dei conta de que aquele encanto primaveril que eu via no seu olhar quando pairava em mim era a miragem usual oferecida a qualquer um. Dois glóbulos brancos com íris castanha, úmidos e curiosos.

Aquele gosto quente que emergia na sua boca e se derramava fervendo dentro de mim, ardente, cítrico, e desembocava no meu sexo em rios, era somente saliva, dentes e uma língua atordoada.

Os fios da sua barba que pareciam despertar de uma só vez todos os meus neurotransmissores, navalha afiada na minha pele, eram apenas pelos não aparados e desgrenhados.

As mãos de delírios e malícias que se multiplicavam em dez quando manejavam o meu corpo eram duas somente, pequenas mãos de menino, e não suportavam a dimensão, o peso e a tecitura de um coração desgastado, que é dado à delicadeza.

Aquela fúria de desejo que movia os nossos corpos para dentro um do outro, sôfrega fissura em busca de aconchego e saciedade para o instante próximo nem chegado, era um, entre tantos, estudos fisiológicos.

Eu me dei conta de que, com um binóculo, concentrei os olhos em nanopartículas. E você era, desde sempre, um boneco de madeira sobre a geladeira. Em mim está tudo: a primavera, o ardor, a eletricidade, a fissura, a razão e o amor com que te fiz.