sábado, 28 de junho de 2014

Hormônios, hienas e bruxas...

Ultimamente tenho me sentido um daqueles bonecos-jogadores do pebolim: chutando, chutando, chutando uma bola desvairada, de forma inconsciente. Girando de cabeça para baixo a todo instante e emergindo novamente para girar outra vez e chutar para toda parte. Minhas emoções estão um vai e vem. Meus hormônios riem de mim, na certa.

O ímpeto de coragem que brotou em mim no ano passado se foi e há só rastro dele. Sou a covarde de sempre com ligeiros delírios de coragem. A mulher de ação que por ventura vejo em mim, às vezes, para certas situações, está enfaixada como uma múmia. Não consigo me mover. Sinto-me completamente enfastiada, enauseada.

As palavras não adiantam. Não resolvem. Não me consolam. As palavras, mais uma vez, significam nada. Às vezes, sinto tanto ódio das palavras, a ponto de desejar que ficássemos todos mudos para sempre. Se tivesse talento e conhecimento, escreveria o meu ensaio sobre a surdez.  Tanto falatório em toda parte! Somos um bando de papagaios repetidores das mesmas conversas. Consciência de papagaios. Vozes de papagaio. Não suporto ouvir a minha voz, às vezes.

Sinto, por alguns momentos, uma vontade imensa de falar, monologo mentalmente sobre um assunto por uns trinta, quarenta minutos diretos e penso em externalizar tudo o que fiquei pensando. Quando estou para dizer, constato que não vale nada dizer coisa alguma. Não serve para nada. Neurônios desperdiçados. As palavras da vida real são inúteis. As palavras literárias, fluidas, escorregadias, fictícias, são mais firmes que as da vida real. Deter-me pensando nisso também me enfastia um pouco. Tudo é falso.

Às vezes, penso que deveria fazer um trabalho missionário, como o dos Médicos sem Fronteiras, talvez. Conviver com o sofrimento físico de muitas pessoas, com a miséria extrema, em um deserto. Curá-las, alimentá-las, consolá-las. Ater-me ao sofrimento alheio. Assim, eu ficaria sem brechas para pensar em bobagens. Eu relativizaria isso que chamo "meu sofrimento". Cultivaria o espírito, falaria menos, suportaria mais.

Meu descrédito nas palavras é antigo. Eu confio muito nas palavras, por isso, a desilusão. As palavras desequilibram o mundo, os hormônios da gente. Jogam com a gente, como no pebolim. Depois, riem de nós, desdenhosas, cínicas, como as hienas e as bruxas. Eu tenho medo de dizer muitas palavras. Já disse muita merda por aí e, bem feito, tenho sido retribuída com outras tantas merdas..

domingo, 22 de junho de 2014

Carma...

"Passei muito tempo tendo conversas imaginárias com Buddy Willard. Ele era dois anos mais velho que eu e muito preciso no que dizia, por isso sempre comprovava tudo. Quando estava com ele, tinha de me esforçar para entender o que dizia.
Essas minhas conversas imaginárias costumavam repetir o começo das conversas reais com Buddy, só que terminavam quando eu respondia alguma coisa com rispidez, em vez de ficar apenas dizendo: "Deve ser."
Agora, deitada na cama, imaginei Buddy perguntando: "Sabe o que é um poema, Esther?"
"Não. O que é", diria eu?
"Poeira."
Aí, na hora em que ele sorrisse e começasse a ficar orgulhoso, eu diria:
"Poeira, sim, como os cadáveres que você disseca. E as pessoas que você acha que está curando. Eles também são pura poeira, poeira, poeira. Só que um bom poema dura muito mais que cem pessoas juntas."
E, claro, Buddy não ia saber como responder, porque eu tinha dito uma coisa que era verdade. As pessoas são feitas apenas de poeira, nada mais, e eu não achava que cuidar daquela poeira toda fosse melhor do que escrever poemas que as pessoas lembrariam e repetiriam quando estivessem tristes ou doentes ou não conseguissem dormir.

(Silvia Plath, in: A redoma de vidro)


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Tenho constantemente sido colocada frente a frente com as minhas contradições. Isso sempre foi assim. Os meus sentidos hoje percebem esse duelo com mais frequência. A minha consciência está sempre a postos para essa constatação, embora às vezes eu prefira, opte mesmo, por abstrair esse tipo de informação. Como se sabe, às vezes, as mentiras ou o que é ocultado tranquilizam o sono e fica mais fácil viver. O fato é que vivo em eterna afirmação e negação do que sou, de quem sou, de quem quero ser, de quem não posso ser. Não há espelho que dê conta de me mostrar, não falta espelho pra me mostrar. Especialmente em relação à minha negritude, estou sempre sendo emparedada.
Sou negra, tenho de afirmar positivamente essa identidade. Penso nisto o tempo todo: sou uma  mulher negra que precisa vender a sua força de trabalho para viver e vivo em um mundo racista, machista e classista. Acordo e durmo pensando nisso. Estudo e trabalho pensando nisso. Relaciono-me com as pessoas pensando nisso. A experiência de ser mulher negra me impôs esta subjetividade. A minha negritude é a condição estruturante da minha consciência.  Conhecer a história do povo negro, da nação em que nasci e das demais impôs para mim, entre outras coisas,  uma certa militância, muitas vezes, vivida a contragosto. Pesa, isso.
Dia do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Almoço  em um conhecido bar de Brasília, frequentado pela classe média da cidade. Eu estava ali, achando, apesar da desconfiança de sempre, que era uma igual. Corpo coberto com as mercadorias costumeiramente aceitas pela classe média, enquadrada no estilo aceito para a ocasião, apenas as características fenotípicas do lado de fora, mas sob controle, maquiadas. No geral, eu estava me sentindo bem, nada me acusava ali de minha negritude ou, se acusava, fazia-o em voz baixa, mentalmente, é provável.
Entra uma moça no restaurante. Pedinte. Descabelada. Descalça. Barriga sobressalente de fora. Lábios imensos. Nariz imenso. Veste bermuda verde e top amarelo, afinal, era o dia do jogo do Brasil. Quem era ela? Importa? Já não se conhece esse tipo? Eu digo: era uma mulher negra. Era eu, instantaneamente, irremediavelmente. Era minha irmã. Era meu povo. Éramos todas aquela jovem. Era o sangue que circula nas minhas veias e que as entope progressivamente.
Senti-me mal. Aquele lugar estava, de repente, cheio de espelhos apontados para mim. Eu estava despida das mercadorias de agora há pouco, era o problema social nu, em pelo. Naqueles poucos minutos em que ela permaneceu ali, pedindo, humilhando-se, eu me senti arrasada. Eu não a queria ali. Eu não a queria em lugar algum. Ela depunha contra os meus estudos, o meu trabalho, as minhas reflexões, os meus esforços, a minha suposta militância. O meu direito de estar ali, entre os brancos de classe média de Brasília, sem ser acusada de minha negritude, sem ter de vestir armaduras para lutar... E ainda apresentava para todos os comensais a minha conta bancária - minhas dívidas, meu saldo, meu contracheque. Um desespero pra mim...

Eu me escondo diariamente daquela mulher. Eu não quero ser vista através dela pelas lentes alheias. Eu sinto vergonha por mim - por pensar assim - e por ela. Eu amo aquela mulher negra de top amarelo e bermuda verde, ela dá sentido à minha existência, mas a sua existência impede que eu ame a mim.


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As pessoas dizemos:
- Que você seja feliz.
Em algumas ocasiões, isso é dito com tanto desprezo e cinismo, que não há saída senão receber com dor, dor, dor demais.
Eu imagino um velório. Ali todos tentamos consolar uma dor infinita, com uma força descomunal. Prometemos que ela vai passar; ela não vai passar, a gente sabe. A gente sabe que não dá para medir força com um negócio desses. O tempo passa, o tempo esconde, disfarça a dor. Ela está, no entanto, sempre de butuca, em sentinela, à espreita, com os olhos secos, avermelhados e ardentes, bem abertos.
- Seja feliz!
Dizer isso não salva ninguém da dor.
Isso é uma sentença capital: empurra a gente para mais uma solidão, mais um abandono irreparável. Isso não é uma benção, uma graça, um carma: isso é a vida, sem mistificação.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Samba...




O grande poder transformador chama dor. Chama samba. Me chama: o chão de terra vermelha travestido de todas as cores, áspero, tortuoso, de onde se levantam eventuais ondas de compaixão, batuques de pandeiro. O samba também me chama. A mim, sua irmã, filha da dor. O amor me chama. Adormecida, eu ouço. Chama: o grande poder restaurador. Olha, olha longe, olha e vê:
-  O dia ainda não raiou, mas já está a caminho.


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Fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra isso não há quem possa.