"Passei muito tempo tendo conversas imaginárias com Buddy Willard. Ele era dois anos mais velho que eu e muito preciso no que dizia, por isso sempre comprovava tudo. Quando estava com ele, tinha de me esforçar para entender o que dizia.
Essas minhas conversas imaginárias costumavam repetir o começo das conversas reais com Buddy, só que terminavam quando eu respondia alguma coisa com rispidez, em vez de ficar apenas dizendo: "Deve ser."
Agora, deitada na cama, imaginei Buddy perguntando: "Sabe o que é um poema, Esther?"
"Não. O que é", diria eu?
"Poeira."
Aí, na hora em que ele sorrisse e começasse a ficar orgulhoso, eu diria:
"Poeira, sim, como os cadáveres que você disseca. E as pessoas que você acha que está curando. Eles também são pura poeira, poeira, poeira. Só que um bom poema dura muito mais que cem pessoas juntas."
E, claro, Buddy não ia saber como responder, porque eu tinha dito uma coisa que era verdade. As pessoas são feitas apenas de poeira, nada mais, e eu não achava que cuidar daquela poeira toda fosse melhor do que escrever poemas que as pessoas lembrariam e repetiriam quando estivessem tristes ou doentes ou não conseguissem dormir.
(Silvia Plath, in: A redoma de vidro)
***************
Tenho constantemente sido colocada frente a frente com as minhas contradições. Isso sempre foi assim. Os meus sentidos hoje percebem esse duelo com mais frequência. A minha consciência está sempre a postos para essa constatação, embora às vezes eu prefira, opte mesmo, por abstrair esse tipo de informação. Como se sabe, às vezes, as mentiras ou o que é ocultado tranquilizam o sono e fica mais fácil viver. O fato é que vivo em eterna afirmação e negação do que sou, de quem sou, de quem quero ser, de quem não posso ser. Não há espelho que dê conta de me mostrar, não falta espelho pra me mostrar. Especialmente em relação à minha negritude, estou sempre sendo emparedada.
Sou negra, tenho de afirmar positivamente essa identidade. Penso nisto o tempo todo: sou uma mulher negra que precisa vender a sua força de trabalho para viver e vivo em um mundo racista, machista e classista. Acordo e durmo pensando nisso. Estudo e trabalho pensando nisso. Relaciono-me com as pessoas pensando nisso. A experiência de ser mulher negra me impôs esta subjetividade. A minha negritude é a condição estruturante da minha consciência. Conhecer a história do povo negro, da nação em que nasci e das demais impôs para mim, entre outras coisas, uma certa militância, muitas vezes, vivida a contragosto. Pesa, isso.
Dia do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Almoço em um conhecido bar de Brasília, frequentado pela classe média da cidade. Eu estava ali, achando, apesar da desconfiança de sempre, que era uma igual. Corpo coberto com as mercadorias costumeiramente aceitas pela classe média, enquadrada no estilo aceito para a ocasião, apenas as características fenotípicas do lado de fora, mas sob controle, maquiadas. No geral, eu estava me sentindo bem, nada me acusava ali de minha negritude ou, se acusava, fazia-o em voz baixa, mentalmente, é provável.
Entra uma moça no restaurante. Pedinte. Descabelada. Descalça. Barriga sobressalente de fora. Lábios imensos. Nariz imenso. Veste bermuda verde e top amarelo, afinal, era o dia do jogo do Brasil. Quem era ela? Importa? Já não se conhece esse tipo? Eu digo: era uma mulher negra. Era eu, instantaneamente, irremediavelmente. Era minha irmã. Era meu povo. Éramos todas aquela jovem. Era o sangue que circula nas minhas veias e que as entope progressivamente.
Senti-me mal. Aquele lugar estava, de repente, cheio de espelhos apontados para mim. Eu estava despida das mercadorias de agora há pouco, era o problema social nu, em pelo. Naqueles poucos minutos em que ela permaneceu ali, pedindo, humilhando-se, eu me senti arrasada. Eu não a queria ali. Eu não a queria em lugar algum. Ela depunha contra os meus estudos, o meu trabalho, as minhas reflexões, os meus esforços, a minha suposta militância. O meu direito de estar ali, entre os brancos de classe média de Brasília, sem ser acusada de minha negritude, sem ter de vestir armaduras para lutar... E ainda apresentava para todos os comensais a minha conta bancária - minhas dívidas, meu saldo, meu contracheque. Um desespero pra mim...
Eu me escondo diariamente daquela mulher. Eu não quero ser vista através dela pelas lentes alheias. Eu sinto vergonha por mim - por pensar assim - e por ela. Eu amo aquela mulher negra de top amarelo e bermuda verde, ela dá sentido à minha existência, mas a sua existência impede que eu ame a mim.
***********
As pessoas dizemos:
- Que você seja feliz.
Em algumas ocasiões, isso é dito com tanto desprezo e cinismo, que não há saída senão receber com dor, dor, dor demais.
Eu imagino um velório. Ali todos tentamos consolar uma dor infinita, com uma força descomunal. Prometemos que ela vai passar; ela não vai passar, a gente sabe. A gente sabe que não dá para medir força com um negócio desses. O tempo passa, o tempo esconde, disfarça a dor. Ela está, no entanto, sempre de butuca, em sentinela, à espreita, com os olhos secos, avermelhados e ardentes, bem abertos.
- Seja feliz!
Dizer isso não salva ninguém da dor.
Isso é uma sentença capital: empurra a gente para mais uma solidão, mais um abandono irreparável. Isso não é uma benção, uma graça, um carma: isso é a vida, sem mistificação.

Nenhum comentário:
Postar um comentário