sexta-feira, 30 de maio de 2014

Batom vermelho...

"Os edifícios abandonados,
As estradas sem ninguém,
Óleo queimado, as vigas na areia,
A lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos,
Por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas

Pois no dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sozinho no mundo, sem ter ninguém,
O último homem no dia em que o sol morreu".


(O último pôr do sol, Lenine)



O sol que me persegue, que me devora e que amo. Correndo, correndo, correndo. Em busca de quê? Desejo de pisar a areia morna da praia. Imiscuir-me. Ser tomada, succionada, devolvida em mil grânulos. Vislumbres de pequenas felicidades.Rir sozinha. Depois, chorar. Olhar o céu azul. As ondas. Os pássaros em "v".A paisagem se repete e é nova.

Quanto concreto, meu Deus, nesta cidade! Meu coração é um bloco de concreto voando de paraquedas. Meus batons vermelhos estão engavetados. Uma alma triste não combina com batom vermelho. Estou tão cansada, que não sei como cheguei aqui. Tenho andado tão dentro de mim, que olhar no espelho me assusta. Viver é o susto.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Margaritas...


Há dores, enfermidades, doenças, pragas, moléstias em todo o mundo. Sim, estão em toda parte, como as mulheres. Algumas não querem ser curadas, não se deixam curar ou não são simplesmente curadas.
Há dores que são informações genéticas, não queimam à luz do sol, não mudam de pele. Há dores e enfermidades para a  gente macerar durante os dias e as noites, como fumo. Há dores das quais dependo, embora me queixe. É uma fraude, a queixa. Às vezes, a minha fraude - isto que sou eu inteira - me esbofeteia a cara e dói mais.

Para todas as dores, margaritas. Há deliciosas margaritas brancas e amarelas. Deliciosas margaritas bordejadas de mar e maresia.Um mundo coberto de canas não alivia as dores. De margaritas, sim, para o deleite das damas, das almas, dos desamados.

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Saudade.


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As crianças trabalham e morrem.Crianças como eu fui um dia. Como às vezes eu sou, por mais que resista.

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"Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão
menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Raçao diária de erro, distribuída em casa".

(A flor e a náusea - meu poema favorito -, Carlos Drummond de Andrade)


Margarita ou margarida?

Há dores, enfermidades, doenças, pragas, moléstias em todo o mundo.
Sim, estão em toda parte, como as mulheres.
Algumas não querem ser curadas, não se deixam curar ou não são simplesmente curadas.
Há dores e enfermidades  que é pra a gente macerar durante os dias e as noites, como o fumo.
Há dores das quais eu dependo, embora me queixe.
É uma fraude, a queixa.
Às vezes, a minha fraude - isto que eu sou inteira - me esbofeteia a cara e dói mais.
Para todas as dores, margaritas. 
As deliciosas margaritas brancas e amarelas.
As deliciosas margaritas bordejadas pelo mar.
Um mundo coberto de cana, não.
De margaritas, be

terça-feira, 20 de maio de 2014

Mil novecentas e poucas vidas...

em mim 
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando 
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

(Contranarciso, de Leminski)

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Quantos silêncios cabem num sorriso?
Vinte e oito dentes externos.
Quantas palavras calam um sorriso?
Um dente interno e outros tortos do lado de fora.
Quanto um sorriso cobra pra sorrir?
A conta que ninguém de fora paga.
É minha, toda minha, há mil novecentas e poucas vidas...

sábado, 17 de maio de 2014

Fotossíntese

Luz do sol,
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha, em graça , em vida, em força, em luz
Céu azul, 

Que venha até onde os pés
Tocam na terra e a terra inspira e exala seus azuis

Reza, reza o rio,
Córrego pro rio, rio pro mar
Reza correnteza, roça a beira, doura areia
Marcha um homem sobre o chão
Leva no coração uma ferida acesa
Dono do sim e do não
Diante da visão da infinita beleza
Finda por ferir com a mão esta delicadeza 

A coisa mais querida,
A glória da vida...


Luz do sol

(Letra de Caetano Veloso, interpretação de Gal Costa)

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Ninguém é naturalmente especial.
Especial é o modo como a existência se configura, de modo que a gente viva as situações que vive.
Especiais são as descobertas que a experiência de ação no mundo fazem emergir.
Especiais são as situações onde pisamos todos os dias. Onde, não raro, escorregamos, afundamos, nos sujamos e desfalecemos tantas vezes.
Especiais são os momentos que produzem em nós sorriso e que, logo adiante, arrancam-no, com uma voracidade desproporcional.
Especiais são os encontros para os quais somos empurrados ou para os quais nos encaminhamos por gosto e vontade .
Os encontros, às vezes, se desviam do traçado original e, facilmente, são chamados desencontros.
Consideradas assim, sem ênfase, as coisas são tristes, diz o poeta.
E, no entanto, são tão especiais sendo o que são, o que foram.
Toca fundo em mim esse momento da existência.
O meu sorriso já não está tão claro quanto esteve há um ano.
Nisso, sim, não há nada de especial.
Mudo amanhã de pasta de dentes...




sexta-feira, 16 de maio de 2014


Não me considero supersticiosa, mas odeio anos pares.
Tudo embola, a vida não fica fácil.
Neste ano, antes do mês seis, meu coração já morreu as sete vidas a que tinha direito.
O álcool lhe tem trazido de volta.
Como é ruim voltar sabendo que o fôlego pode outra vez faltar, a qualquer hora. Na hora de dormir, quem sabe. Eu, que gosto de dormir porque sei que se trata de um período de sono e só, me apavoro.
Providenciar uma adega para a casa, eis o que me acomete.
Tento me agarrar à poesia, cuja promessa é suspender os pés do chão por alguns instantes.
Mas são tão curtos e a gravidade, tão grosseira, que termino derrubada e arranhada por garras de onça.
Talvez a poesia só funcione assim.
Tudo podia ser simples como um bom dia.
Mas desejar tenha um  bom dia nunca é fácil, não é fácil. Há bons dias ensanguentados, sobre os quais poesia nenhuma quer falar.
Os dias, eu os mastigo, ultimamente, como a chiclete de isopor.
Mas é tão bom olhar os pássaros e imaginar o que pensam de nós, homens-mulheres, mulheres-homens, olhando de cima, do alto, como Deus.
Crianças... é o que devem pensar. Nesse faz de conta, nesse pique-e-pega, esconde-esconde,
Eu quero ser envolvida por uma asa selvagem de pássaro, com a penugem  laranja da cor de certos Sóis.

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Pensando em palavras que acho bonitas: em primeiro lugar, imiscuir-se. Outra: estilhaços.

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Alma-de-gato...

Ultimamente, tanta vontade de escrever, de dizer as coisas, de gritar todas elas.
Logo, em cima desse desejo, ao mesmo tempo, uma desconfiança das palavras, da utilidade das palavras, da fraqueza das palavras.
Ao mesmo tempo, em cima dessa incredulidade, logo, uma confiança na poesia, uma vontade de poesia, de saber toda a poesia.
Em cima dessa avidez, ao mesmo tempo, logo, uma agonia, um desespero, a intuição degradante da ausência de sentido das coisas, das palavras, da poesia.
E a beleza ainda existe. Como é bonito o sorriso do sol!
O sorriso do dia, do Sol aberto, dourado, quente.
O sol duro sobre a gente.
Das palavras que usamos para descrever o Sol, todas as vezes,
eu gosto.
O Sol, ele arde... E basta.

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Quando a gente se sente uma bruxa,
Feia, nariguda, gorda, craquelada e despenteada,
Entediante, desinteressante e má, mais do que o normal,
Não adianta o astrólogo quem quer que seja dizer o contrário.

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 Um passarinho
volta pra árvore
que não mais existe

Meu pensamento
voa até você
só pra ficar triste

(Leminski)