terça-feira, 22 de julho de 2014

O olho mais azul...


"A minha mãe estava sempre ao meu lado, uma mulher frágil e feroz, ensinando-me a recear o mundo e os seus perigos inumeráveis.

-  A realidade é dolorosa e imperfeita -, dizia-me: é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos.Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

[...] Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos".

(José Eduardo Agualusa, In: O vendedor de passados)


Outro dia li um dos livros que mais mexeram comigo até hoje: “O olho mais azul”, da Tony Morrison, uma escritora norte-americana. A história é narrada por uma adolescente que apresenta as suas lembranças sobre uma colega de infância, a Pecola. Qualquer hora registro aqui um fragmento.

Pecola é uma garota negra, de pele bastante escura,  feia - assim vista por todos à sua volta -, de origem pobre, que compõe uma família estraçalhada pela vida, por uma variedade de pavores que se pode viver. O nome do livro tem origem no desejo de Pecola de ter olhos azuis. Ela apresenta esse desejo a um místico charlatão que lhe promete satisfação desde que ela lhe faça um favor. A menina mata um cachorro sem saber o que fazia. Enlouquece...

Olhos azuis são muito significativos. Dizem, silenciosamente, mais do que uma coletividade inteira teria coragem de admitir. Pecola queria ser bonita, não aguentava mais ser rechaçada, ser o objeto do riso e do nojo alheios, queria olhos azuis. Os tais olhos que lhe custaram a lucidez e que refletem em nós, os hipócritas, a mesquinharia e a miséria. Talvez, antes, o mundo já lhe tivesse aleijado, tirado sua esperança. Muito antes de ela chegar com a sua escuridão impregnada ao casco.

Concentrar meu pensamento no desejo de ter olhos azuis me deixa extremamente sentida. Vejo Pecola indo ao encontro do homem - de seu redentor - lhe pedir um par de olhos azuis e me dói uma dor tão cheia... Uma vontade imensa de chorar. Choro de lágrimas pesadas, amargas. O peso dos séculos de frustrações da humanidade. Choro de lamento por nossa fraqueza. Por nossa solidão. Quanta solidão havia em Pecola! Quanta solidão há. Depois, sinto raiva. Muitas raivas. Sinto o meu corpo e os meus olhos ferverem e tantas raivas querem explodir! Como me senti próxima dessa história! De Pecola e de Cláudia, a narradora. No fundo, eu também quero olhos azuis. Silenciar a minha história confere potência  a esses olhos azuis. Comprei um par de lentes coloridas e, de repente, o mundo parecia melhor. Grande mentira. Embora me pese a consciência, fui feliz assim, vivendo como Olímpia, a boneca de madeira. Louca.

Eu tenho vontade de dizer a Pecola algo consolador, mas todas as palavras são suspeitas. Eu tenho de agir. Eu daria a essa menina um afago em sua cabeça, talvez, jamais tocada com carinho, porque cabelos crespos são temidos. [Não se pode tocar nos cabelos crespos. Nem nos de Pecola nem nos de ninguém. Eles afugentam, machucam, embaraçam. A cabeça de uma fêmea negra não se toca. É preciso muita coragem para isso!] Eu afundaria os cinco dedos de minha mão naquele ninho de cabelos crespos, sentindo a aspereza de cada fio,  sentindo cada pequeno nó, sentindo a ousadia de cada frizo e cantaria em silêncio uns versos sem palavras, cheios de agrado, criados só para dizer dela, até que dormisse e sonhasse com os seus olhos azuis. Pecola não podia ter existido por tanto tempo sem um carinho na cabeça. Não deveria ser possível existir alguém que vivesse assim...

A loucura responde a muitos incômodos. Sinto-me próxima dela cada vez mais. Durante muito tempo confiei em minha inteligência como redenção desta pele em que habito. Tenho vontade de rir agora dizendo isso e pensando na asneira que é isso. Olhos azuis podem muito mais. Pecola não estava errada, sob nenhum aspecto, em querê-los. Lembro de uma vez em que um tombo me derrubou e eu permaneci desacordada por alguns segundos. Caí de cabeça. Assim que voltei a mim, em desespero, fui conferir se continuava lendo e entendendo o que estava escrito. Estava lúcida e inteligente, como sempre. Com a leitura e a escrita em punho, meus olhos azuis, talvez. Ingênua. Coisa de menina.  Pecola...

Não há redenção para ninguém. O entendimento é seletivo, algumas pessoas são seletas e outras, selecionadas. As condenações já foram distribuídas desde o início e são irremediáveis...

Os olhos azuis de Pecola dão a ela a chance de dar o troco... Será? Adianta? Eu acredito na efetividade disso?