
"A minha mãe estava sempre ao meu lado, uma mulher frágil e feroz, ensinando-me a recear o mundo e os seus perigos inumeráveis.
- A realidade é dolorosa e imperfeita -, dizia-me: é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos.Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.
[...] Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos".
(José Eduardo Agualusa, In: O vendedor de passados)
Outro dia li um dos livros que mais mexeram comigo até hoje: “O olho mais azul”, da Tony Morrison, uma escritora norte-americana. A história é narrada por uma adolescente que apresenta as suas lembranças sobre uma colega de infância, a Pecola. Qualquer hora registro aqui um fragmento.
Pecola é uma garota negra, de
pele bastante escura, feia - assim vista por todos à sua volta -, de origem pobre, que compõe uma família
estraçalhada pela vida, por uma variedade de pavores que se pode viver.
O nome do livro tem origem no desejo de Pecola de ter olhos
azuis. Ela apresenta
esse desejo a um místico charlatão que lhe promete satisfação desde
que ela lhe faça um favor. A menina mata um cachorro sem saber o que fazia. Enlouquece...
Olhos azuis são muito significativos.
Dizem, silenciosamente, mais do que uma coletividade inteira teria coragem de
admitir. Pecola queria ser bonita, não aguentava mais ser rechaçada, ser o objeto do riso e do nojo alheios, queria olhos azuis. Os tais olhos que
lhe custaram a lucidez e que refletem em nós, os hipócritas, a mesquinharia e a miséria. Talvez, antes, o mundo já lhe tivesse aleijado, tirado sua esperança. Muito
antes de ela chegar com a sua escuridão impregnada ao casco.
Concentrar meu pensamento no desejo
de ter olhos azuis me deixa extremamente sentida. Vejo
Pecola indo ao encontro do homem - de seu redentor - lhe pedir um par de olhos azuis e me dói uma
dor tão cheia... Uma vontade imensa de chorar. Choro de lágrimas pesadas, amargas. O
peso dos séculos de frustrações da humanidade. Choro de lamento por nossa
fraqueza. Por nossa solidão. Quanta solidão havia em Pecola! Quanta solidão há.
Depois, sinto raiva. Muitas raivas. Sinto o meu corpo e os meus olhos
ferverem e tantas raivas querem explodir! Como me senti próxima dessa história!
De Pecola
e de Cláudia, a narradora.
No fundo, eu também quero olhos azuis. Silenciar a minha história confere
potência a esses olhos azuis. Comprei um
par de lentes coloridas e, de repente, o mundo parecia melhor. Grande mentira. Embora me pese a consciência, fui feliz assim, vivendo como Olímpia, a boneca de madeira. Louca.
Eu tenho vontade de dizer a Pecola algo consolador, mas todas as palavras são suspeitas. Eu tenho de agir. Eu daria a essa menina um afago em sua
cabeça, talvez, jamais tocada com carinho, porque cabelos crespos são temidos. [Não
se pode tocar nos cabelos crespos. Nem nos de Pecola nem nos de ninguém. Eles
afugentam, machucam, embaraçam. A cabeça de uma fêmea negra não se toca. É preciso muita coragem para isso!] Eu afundaria os cinco dedos de minha mão
naquele ninho de cabelos crespos, sentindo a aspereza de cada fio, sentindo cada pequeno nó, sentindo a ousadia de cada frizo e cantaria em silêncio uns versos sem palavras, cheios de agrado, criados só para dizer dela, até que dormisse e sonhasse com os seus olhos
azuis. Pecola não podia ter existido por tanto tempo sem um carinho na cabeça. Não deveria ser possível existir alguém que vivesse assim...
A loucura responde a muitos
incômodos. Sinto-me próxima dela cada vez mais. Durante muito tempo confiei em
minha inteligência como redenção desta pele em que habito. Tenho vontade de rir
agora dizendo isso e pensando na asneira que é isso. Olhos azuis podem muito
mais. Pecola não estava errada, sob nenhum aspecto, em querê-los. Lembro de uma
vez em que um tombo me derrubou e eu permaneci desacordada por alguns segundos.
Caí de cabeça. Assim que voltei a mim, em desespero, fui conferir se continuava
lendo e entendendo o que estava escrito. Estava lúcida e inteligente, como sempre. Com a leitura e a escrita em punho, meus olhos azuis, talvez. Ingênua. Coisa de menina. Pecola...
Os olhos azuis de Pecola dão a ela a chance de dar o troco... Será? Adianta? Eu acredito na efetividade disso?
