terça-feira, 5 de junho de 2018

Xotes

Eletrostática

Sol alto.
Céu limpo.
Folhas secas.
Flores parcas.
Entremeio, luz.
Acumulada, estala.
Atrai corpo.
Rechaça.
Tempo-estátua.
Vento-passa: revira.
Atrita, arde, vida.


Frente fria 

Por uns minutos, invisível.
Transmutada.
Uma rajada de vento imprevista.
Meio de uma tarde seca, seca, em que respirar abre fendas na pele.
De repente, envolver, num relance, as tuas costas.
Atrás do tecido.
Um trem veloz num túnel escuro, abafado.
Resfriar a tua nuca.
Assistir ao fio de gelo escorrer - partir essas costas.
Um arrepio.
Num segundo, uma ameaça de asas rufla.
Agora.
Somente agora.
E acaba...
De volta à forma usual, bípede, agarrada ao chão, ao nó da gravidade.
Diz-se de uma estranha frente fria sob o sol ardente.


Vigília

Em pé de frente ao mar.
De pé, em frente, o mar.
O mar rente aos pés.
Pés ao mar.
Mar aos pés.
Os pés. Mar.
Afunda: mar.
Fecunda: pé.


Sobre mim e o vento

Eu sou fagulha à espera do vento.
Se sopra, acendo, cresço, alastro.
Se ausenta, aquieto, recuo, falto.


Convite
"Experimente uma conexão além das palavras".
Chamada do filme "A Forma da Água".
Nesse caso, além é sem? Além é também?
Juro, não sei.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Impedimentos

Escrevi em 19/04/2016, 12 dias após a morte de minha vó.
A minha vó, Dona Raimunda, só pôde frequentar a escola até a quinta série do Ensino Fundamental, mas valorizava muito a Educação, o estudo e a escola. Abandonou o ensino formal porque morava em Caxias, uma cidade do interior do Maranhão e, após a quinta série, seria necessário transferir-se para uma escola distante de onde residia. A mãe não consentiu, pois a menina era sua ajudante na pequena mercearia que a família mantinha e o seu período de ausência comprometeria o bom funcionamento do comércio. Sua irmã, Terezinha, que era a filha caçula, contou com a generosidade da mãe e conseguiu se formar professora normalista. Minha vó sentia muito orgulho da irmã, que, de fato, foi reconhecida e premiada na cidade natal por ser uma excelente professora.
Embora sem ter tido chance semelhante, o gosto pelo estudo permaneceu aceso em minha vó e ela procurou transferi-lo para os filhos, que, à custa de seu trabalho duro já em Brasília, puderam aproveitar a infância e a adolescência estudando, e não trabalhando, como ocorreu a ela. Exceto pelo filho que adotou aqui, os outros se formaram no nível superior e os netos seguem o mesmo caminho.
Eu estive muito próxima de minha vó durante grande parte de minha vida e dela recebi bastante estímulo para estudar. Ela dizia com frequência frases como: "minha filha, quem estuda vence", "Kessinha, não se vence sem estudo", " força e coragem para estudar, siá", e, com o salário de sua aposentadoria, fez o que foi possível a ela para incrementar os meus estudos e/ou facilitá-los. A minha vó participou do primeiro e do último evento de formatura que eu vivenciei. Neste último, foi quando graduei-me professora de Língua Portuguesa e Respectiva Literatura. Tenho já quase dez anos de formação e há três venho lecionando de forma ininterrupta na rede pública de ensino do DF. Não posso me comparar à professora que minha tia foi, mas me identifico com as do tipo que gostam do que fazem e, modéstia à parte, procuro exercer bem o ofício, embora isso não venha ao caso. O fato é que minha vó tinha também um certo orgulho da netinha professora, embora haja na família uma neta doutora, pela qual, com razão, ela também se sentia muito orgulhosa.
Minha vó foi hospitalizada no fim do mês de março e faleceu há menos de quinze dias. Nesse período, no país, os ânimos de certos segmentos da população estavam inflamados, por um lado, pelo temor e, por outro, pelo clamor do impeachmant da presidenta Dilma. Ontem, a Câmara dos deputados decidiu pelo impedimento. Hoje, nas redes sociais, vi uma série de xingamentos e palavras ofensivas contra a presidenta, o PT, os parlamentares que votaram de forma contrária ao impedimento, os artistas e intelectuais que discordam disso. Palavras grotescas e odiosas, várias vezes, carentes de justificativa válida, se é que se pode dizer assim, como se um único palavrão pudesse sintetizar e desqualificar simultaneamente toda a história de vida da mulher que foi escolhida pela maioria da população a primeira presidenta do país, por duas vezes consecutivas. Uma mulher que, na verdade, tem muito mais história de mulher, de filha, de mãe, de avó, de estudante, de trabalhadora, de militante política... do que de presidente do país.
Como o luto por minha vó está recente, não pude deixar de associar tudo o que está ocorrendo e a atmosfera que os acontecimentos têm gerado à minha vó, à sua história, à sua fé na Educação, no estudo, na escola. Sinto ainda mais que é preciso aproveitar o exercício do ofício para educar as pessoas. Educar em um sentido que permita às pessoas apropriarem-se da história da nação como conteúdo visceral, integrante de cada um, e não como conteúdo estático, folhas do livro didático. Educar de um jeito que se leia essa história como se a estivéssemos tateando, sentindo na carne cada grânulo, cada pedra, cada foice, para que venha à tona, de fato, identificação e incômodo. Educar em um sentido que permita a interiorização da alteridade; que desperte a humanização das ações e do pensamento; que suscite o respeito às pessoas frente a elas e frente a qualquer dispositivo digital; que convoque o respeito e o diálogo, e não a violência, a agressão.
Herdei de minha vó o gosto pela Educação, o estudo, a escola. Mas o que eu espero mesmo é que esse interesse seja motivo e veículo de humanização para mim e para os estudantes que eu encontro todos os dias nas salas de aula e, principalmente, fora dali, nas interações da vida real e digital. A minha vó não pôde avançar seus estudos formais, como desejou, mas foi, para a família, uma pessoa notável por seu entendimento do mundo, por sua compreensão da potência transformadora da Educação. É evidente que não é qualquer educação que carrega essa potência. Há no mundo, e bem perto da gente, outras espécies de "educação" que norteiam  práticas deploráveis dos seres humanos e que provocam lástima e vergonha para os que as assistem ou delas são vítimas. O sentimento atual, para mim, em razão do falecimento dessa vó inspiradora, é de desolação. O mesmo que sentem muitos ao meu redor após a vitória do apelo pelo impedimento da presidenta Dilma. Curiosamente, o país que enaltece a Educação como solução de seus problemas sociais, assiste de camarote à expulsão da presidência daquela que adotou como lema de governo a fórmula-promessa: "Brasil: pátria educadora".

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Binóculo


Eu me dei conta de que aquele encanto primaveril que eu via no seu olhar quando pairava em mim era a miragem usual oferecida a qualquer um. Dois glóbulos brancos com íris castanha, úmidos e curiosos.

Aquele gosto quente que emergia na sua boca e se derramava fervendo dentro de mim, ardente, cítrico, e desembocava no meu sexo em rios, era somente saliva, dentes e uma língua atordoada.

Os fios da sua barba que pareciam despertar de uma só vez todos os meus neurotransmissores, navalha afiada na minha pele, eram apenas pelos não aparados e desgrenhados.

As mãos de delírios e malícias que se multiplicavam em dez quando manejavam o meu corpo eram duas somente, pequenas mãos de menino, e não suportavam a dimensão, o peso e a tecitura de um coração desgastado, que é dado à delicadeza.

Aquela fúria de desejo que movia os nossos corpos para dentro um do outro, sôfrega fissura em busca de aconchego e saciedade para o instante próximo nem chegado, era um, entre tantos, estudos fisiológicos.

Eu me dei conta de que, com um binóculo, concentrei os olhos em nanopartículas. E você era, desde sempre, um boneco de madeira sobre a geladeira. Em mim está tudo: a primavera, o ardor, a eletricidade, a fissura, a razão e o amor com que te fiz.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O olho mais azul...


"A minha mãe estava sempre ao meu lado, uma mulher frágil e feroz, ensinando-me a recear o mundo e os seus perigos inumeráveis.

-  A realidade é dolorosa e imperfeita -, dizia-me: é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos.Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

[...] Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos".

(José Eduardo Agualusa, In: O vendedor de passados)


Outro dia li um dos livros que mais mexeram comigo até hoje: “O olho mais azul”, da Tony Morrison, uma escritora norte-americana. A história é narrada por uma adolescente que apresenta as suas lembranças sobre uma colega de infância, a Pecola. Qualquer hora registro aqui um fragmento.

Pecola é uma garota negra, de pele bastante escura,  feia - assim vista por todos à sua volta -, de origem pobre, que compõe uma família estraçalhada pela vida, por uma variedade de pavores que se pode viver. O nome do livro tem origem no desejo de Pecola de ter olhos azuis. Ela apresenta esse desejo a um místico charlatão que lhe promete satisfação desde que ela lhe faça um favor. A menina mata um cachorro sem saber o que fazia. Enlouquece...

Olhos azuis são muito significativos. Dizem, silenciosamente, mais do que uma coletividade inteira teria coragem de admitir. Pecola queria ser bonita, não aguentava mais ser rechaçada, ser o objeto do riso e do nojo alheios, queria olhos azuis. Os tais olhos que lhe custaram a lucidez e que refletem em nós, os hipócritas, a mesquinharia e a miséria. Talvez, antes, o mundo já lhe tivesse aleijado, tirado sua esperança. Muito antes de ela chegar com a sua escuridão impregnada ao casco.

Concentrar meu pensamento no desejo de ter olhos azuis me deixa extremamente sentida. Vejo Pecola indo ao encontro do homem - de seu redentor - lhe pedir um par de olhos azuis e me dói uma dor tão cheia... Uma vontade imensa de chorar. Choro de lágrimas pesadas, amargas. O peso dos séculos de frustrações da humanidade. Choro de lamento por nossa fraqueza. Por nossa solidão. Quanta solidão havia em Pecola! Quanta solidão há. Depois, sinto raiva. Muitas raivas. Sinto o meu corpo e os meus olhos ferverem e tantas raivas querem explodir! Como me senti próxima dessa história! De Pecola e de Cláudia, a narradora. No fundo, eu também quero olhos azuis. Silenciar a minha história confere potência  a esses olhos azuis. Comprei um par de lentes coloridas e, de repente, o mundo parecia melhor. Grande mentira. Embora me pese a consciência, fui feliz assim, vivendo como Olímpia, a boneca de madeira. Louca.

Eu tenho vontade de dizer a Pecola algo consolador, mas todas as palavras são suspeitas. Eu tenho de agir. Eu daria a essa menina um afago em sua cabeça, talvez, jamais tocada com carinho, porque cabelos crespos são temidos. [Não se pode tocar nos cabelos crespos. Nem nos de Pecola nem nos de ninguém. Eles afugentam, machucam, embaraçam. A cabeça de uma fêmea negra não se toca. É preciso muita coragem para isso!] Eu afundaria os cinco dedos de minha mão naquele ninho de cabelos crespos, sentindo a aspereza de cada fio,  sentindo cada pequeno nó, sentindo a ousadia de cada frizo e cantaria em silêncio uns versos sem palavras, cheios de agrado, criados só para dizer dela, até que dormisse e sonhasse com os seus olhos azuis. Pecola não podia ter existido por tanto tempo sem um carinho na cabeça. Não deveria ser possível existir alguém que vivesse assim...

A loucura responde a muitos incômodos. Sinto-me próxima dela cada vez mais. Durante muito tempo confiei em minha inteligência como redenção desta pele em que habito. Tenho vontade de rir agora dizendo isso e pensando na asneira que é isso. Olhos azuis podem muito mais. Pecola não estava errada, sob nenhum aspecto, em querê-los. Lembro de uma vez em que um tombo me derrubou e eu permaneci desacordada por alguns segundos. Caí de cabeça. Assim que voltei a mim, em desespero, fui conferir se continuava lendo e entendendo o que estava escrito. Estava lúcida e inteligente, como sempre. Com a leitura e a escrita em punho, meus olhos azuis, talvez. Ingênua. Coisa de menina.  Pecola...

Não há redenção para ninguém. O entendimento é seletivo, algumas pessoas são seletas e outras, selecionadas. As condenações já foram distribuídas desde o início e são irremediáveis...

Os olhos azuis de Pecola dão a ela a chance de dar o troco... Será? Adianta? Eu acredito na efetividade disso?

sábado, 28 de junho de 2014

Hormônios, hienas e bruxas...

Ultimamente tenho me sentido um daqueles bonecos-jogadores do pebolim: chutando, chutando, chutando uma bola desvairada, de forma inconsciente. Girando de cabeça para baixo a todo instante e emergindo novamente para girar outra vez e chutar para toda parte. Minhas emoções estão um vai e vem. Meus hormônios riem de mim, na certa.

O ímpeto de coragem que brotou em mim no ano passado se foi e há só rastro dele. Sou a covarde de sempre com ligeiros delírios de coragem. A mulher de ação que por ventura vejo em mim, às vezes, para certas situações, está enfaixada como uma múmia. Não consigo me mover. Sinto-me completamente enfastiada, enauseada.

As palavras não adiantam. Não resolvem. Não me consolam. As palavras, mais uma vez, significam nada. Às vezes, sinto tanto ódio das palavras, a ponto de desejar que ficássemos todos mudos para sempre. Se tivesse talento e conhecimento, escreveria o meu ensaio sobre a surdez.  Tanto falatório em toda parte! Somos um bando de papagaios repetidores das mesmas conversas. Consciência de papagaios. Vozes de papagaio. Não suporto ouvir a minha voz, às vezes.

Sinto, por alguns momentos, uma vontade imensa de falar, monologo mentalmente sobre um assunto por uns trinta, quarenta minutos diretos e penso em externalizar tudo o que fiquei pensando. Quando estou para dizer, constato que não vale nada dizer coisa alguma. Não serve para nada. Neurônios desperdiçados. As palavras da vida real são inúteis. As palavras literárias, fluidas, escorregadias, fictícias, são mais firmes que as da vida real. Deter-me pensando nisso também me enfastia um pouco. Tudo é falso.

Às vezes, penso que deveria fazer um trabalho missionário, como o dos Médicos sem Fronteiras, talvez. Conviver com o sofrimento físico de muitas pessoas, com a miséria extrema, em um deserto. Curá-las, alimentá-las, consolá-las. Ater-me ao sofrimento alheio. Assim, eu ficaria sem brechas para pensar em bobagens. Eu relativizaria isso que chamo "meu sofrimento". Cultivaria o espírito, falaria menos, suportaria mais.

Meu descrédito nas palavras é antigo. Eu confio muito nas palavras, por isso, a desilusão. As palavras desequilibram o mundo, os hormônios da gente. Jogam com a gente, como no pebolim. Depois, riem de nós, desdenhosas, cínicas, como as hienas e as bruxas. Eu tenho medo de dizer muitas palavras. Já disse muita merda por aí e, bem feito, tenho sido retribuída com outras tantas merdas..

domingo, 22 de junho de 2014

Carma...

"Passei muito tempo tendo conversas imaginárias com Buddy Willard. Ele era dois anos mais velho que eu e muito preciso no que dizia, por isso sempre comprovava tudo. Quando estava com ele, tinha de me esforçar para entender o que dizia.
Essas minhas conversas imaginárias costumavam repetir o começo das conversas reais com Buddy, só que terminavam quando eu respondia alguma coisa com rispidez, em vez de ficar apenas dizendo: "Deve ser."
Agora, deitada na cama, imaginei Buddy perguntando: "Sabe o que é um poema, Esther?"
"Não. O que é", diria eu?
"Poeira."
Aí, na hora em que ele sorrisse e começasse a ficar orgulhoso, eu diria:
"Poeira, sim, como os cadáveres que você disseca. E as pessoas que você acha que está curando. Eles também são pura poeira, poeira, poeira. Só que um bom poema dura muito mais que cem pessoas juntas."
E, claro, Buddy não ia saber como responder, porque eu tinha dito uma coisa que era verdade. As pessoas são feitas apenas de poeira, nada mais, e eu não achava que cuidar daquela poeira toda fosse melhor do que escrever poemas que as pessoas lembrariam e repetiriam quando estivessem tristes ou doentes ou não conseguissem dormir.

(Silvia Plath, in: A redoma de vidro)


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Tenho constantemente sido colocada frente a frente com as minhas contradições. Isso sempre foi assim. Os meus sentidos hoje percebem esse duelo com mais frequência. A minha consciência está sempre a postos para essa constatação, embora às vezes eu prefira, opte mesmo, por abstrair esse tipo de informação. Como se sabe, às vezes, as mentiras ou o que é ocultado tranquilizam o sono e fica mais fácil viver. O fato é que vivo em eterna afirmação e negação do que sou, de quem sou, de quem quero ser, de quem não posso ser. Não há espelho que dê conta de me mostrar, não falta espelho pra me mostrar. Especialmente em relação à minha negritude, estou sempre sendo emparedada.
Sou negra, tenho de afirmar positivamente essa identidade. Penso nisto o tempo todo: sou uma  mulher negra que precisa vender a sua força de trabalho para viver e vivo em um mundo racista, machista e classista. Acordo e durmo pensando nisso. Estudo e trabalho pensando nisso. Relaciono-me com as pessoas pensando nisso. A experiência de ser mulher negra me impôs esta subjetividade. A minha negritude é a condição estruturante da minha consciência.  Conhecer a história do povo negro, da nação em que nasci e das demais impôs para mim, entre outras coisas,  uma certa militância, muitas vezes, vivida a contragosto. Pesa, isso.
Dia do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Almoço  em um conhecido bar de Brasília, frequentado pela classe média da cidade. Eu estava ali, achando, apesar da desconfiança de sempre, que era uma igual. Corpo coberto com as mercadorias costumeiramente aceitas pela classe média, enquadrada no estilo aceito para a ocasião, apenas as características fenotípicas do lado de fora, mas sob controle, maquiadas. No geral, eu estava me sentindo bem, nada me acusava ali de minha negritude ou, se acusava, fazia-o em voz baixa, mentalmente, é provável.
Entra uma moça no restaurante. Pedinte. Descabelada. Descalça. Barriga sobressalente de fora. Lábios imensos. Nariz imenso. Veste bermuda verde e top amarelo, afinal, era o dia do jogo do Brasil. Quem era ela? Importa? Já não se conhece esse tipo? Eu digo: era uma mulher negra. Era eu, instantaneamente, irremediavelmente. Era minha irmã. Era meu povo. Éramos todas aquela jovem. Era o sangue que circula nas minhas veias e que as entope progressivamente.
Senti-me mal. Aquele lugar estava, de repente, cheio de espelhos apontados para mim. Eu estava despida das mercadorias de agora há pouco, era o problema social nu, em pelo. Naqueles poucos minutos em que ela permaneceu ali, pedindo, humilhando-se, eu me senti arrasada. Eu não a queria ali. Eu não a queria em lugar algum. Ela depunha contra os meus estudos, o meu trabalho, as minhas reflexões, os meus esforços, a minha suposta militância. O meu direito de estar ali, entre os brancos de classe média de Brasília, sem ser acusada de minha negritude, sem ter de vestir armaduras para lutar... E ainda apresentava para todos os comensais a minha conta bancária - minhas dívidas, meu saldo, meu contracheque. Um desespero pra mim...

Eu me escondo diariamente daquela mulher. Eu não quero ser vista através dela pelas lentes alheias. Eu sinto vergonha por mim - por pensar assim - e por ela. Eu amo aquela mulher negra de top amarelo e bermuda verde, ela dá sentido à minha existência, mas a sua existência impede que eu ame a mim.


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As pessoas dizemos:
- Que você seja feliz.
Em algumas ocasiões, isso é dito com tanto desprezo e cinismo, que não há saída senão receber com dor, dor, dor demais.
Eu imagino um velório. Ali todos tentamos consolar uma dor infinita, com uma força descomunal. Prometemos que ela vai passar; ela não vai passar, a gente sabe. A gente sabe que não dá para medir força com um negócio desses. O tempo passa, o tempo esconde, disfarça a dor. Ela está, no entanto, sempre de butuca, em sentinela, à espreita, com os olhos secos, avermelhados e ardentes, bem abertos.
- Seja feliz!
Dizer isso não salva ninguém da dor.
Isso é uma sentença capital: empurra a gente para mais uma solidão, mais um abandono irreparável. Isso não é uma benção, uma graça, um carma: isso é a vida, sem mistificação.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Samba...




O grande poder transformador chama dor. Chama samba. Me chama: o chão de terra vermelha travestido de todas as cores, áspero, tortuoso, de onde se levantam eventuais ondas de compaixão, batuques de pandeiro. O samba também me chama. A mim, sua irmã, filha da dor. O amor me chama. Adormecida, eu ouço. Chama: o grande poder restaurador. Olha, olha longe, olha e vê:
-  O dia ainda não raiou, mas já está a caminho.


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Fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra isso não há quem possa.