Eu me dei conta de que aquele encanto
primaveril que eu via no seu olhar quando pairava em mim era a miragem usual
oferecida a qualquer um. Dois glóbulos brancos com íris castanha,
úmidos e curiosos.
Aquele gosto quente que emergia
na sua boca e se derramava fervendo dentro de mim, ardente, cítrico, e
desembocava no meu sexo em rios, era somente saliva, dentes e uma língua atordoada.
Os fios da sua barba que pareciam
despertar de uma só vez todos os meus neurotransmissores, navalha afiada na minha pele, eram apenas pelos não aparados e desgrenhados.
As mãos de delírios e malícias
que se multiplicavam em dez quando manejavam o meu corpo eram duas somente,
pequenas mãos de menino, e não suportavam a dimensão, o peso e a tecitura de um
coração desgastado, que é dado à delicadeza.
Aquela fúria de desejo que movia
os nossos corpos para dentro um do outro, sôfrega fissura em busca de aconchego
e saciedade para o instante próximo nem chegado, era um, entre tantos, estudos fisiológicos.
Eu me dei conta de que, com um binóculo,
concentrei os olhos em nanopartículas. E você era, desde sempre, um boneco de
madeira sobre a geladeira. Em mim está tudo: a primavera, o ardor, a
eletricidade, a fissura, a razão e o amor com que te fiz.


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