quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Binóculo


Eu me dei conta de que aquele encanto primaveril que eu via no seu olhar quando pairava em mim era a miragem usual oferecida a qualquer um. Dois glóbulos brancos com íris castanha, úmidos e curiosos.

Aquele gosto quente que emergia na sua boca e se derramava fervendo dentro de mim, ardente, cítrico, e desembocava no meu sexo em rios, era somente saliva, dentes e uma língua atordoada.

Os fios da sua barba que pareciam despertar de uma só vez todos os meus neurotransmissores, navalha afiada na minha pele, eram apenas pelos não aparados e desgrenhados.

As mãos de delírios e malícias que se multiplicavam em dez quando manejavam o meu corpo eram duas somente, pequenas mãos de menino, e não suportavam a dimensão, o peso e a tecitura de um coração desgastado, que é dado à delicadeza.

Aquela fúria de desejo que movia os nossos corpos para dentro um do outro, sôfrega fissura em busca de aconchego e saciedade para o instante próximo nem chegado, era um, entre tantos, estudos fisiológicos.

Eu me dei conta de que, com um binóculo, concentrei os olhos em nanopartículas. E você era, desde sempre, um boneco de madeira sobre a geladeira. Em mim está tudo: a primavera, o ardor, a eletricidade, a fissura, a razão e o amor com que te fiz.

Nenhum comentário: