terça-feira, 5 de junho de 2018

Xotes

Eletrostática

Sol alto.
Céu limpo.
Folhas secas.
Flores parcas.
Entremeio, luz.
Acumulada, estala.
Atrai corpo.
Rechaça.
Tempo-estátua.
Vento-passa: revira.
Atrita, arde, vida.


Frente fria 

Por uns minutos, invisível.
Transmutada.
Uma rajada de vento imprevista.
Meio de uma tarde seca, seca, em que respirar abre fendas na pele.
De repente, envolver, num relance, as tuas costas.
Atrás do tecido.
Um trem veloz num túnel escuro, abafado.
Resfriar a tua nuca.
Assistir ao fio de gelo escorrer - partir essas costas.
Um arrepio.
Num segundo, uma ameaça de asas rufla.
Agora.
Somente agora.
E acaba...
De volta à forma usual, bípede, agarrada ao chão, ao nó da gravidade.
Diz-se de uma estranha frente fria sob o sol ardente.


Vigília

Em pé de frente ao mar.
De pé, em frente, o mar.
O mar rente aos pés.
Pés ao mar.
Mar aos pés.
Os pés. Mar.
Afunda: mar.
Fecunda: pé.


Sobre mim e o vento

Eu sou fagulha à espera do vento.
Se sopra, acendo, cresço, alastro.
Se ausenta, aquieto, recuo, falto.


Convite
"Experimente uma conexão além das palavras".
Chamada do filme "A Forma da Água".
Nesse caso, além é sem? Além é também?
Juro, não sei.