domingo, 20 de abril de 2014

Meio fio...

"Um homem partira de uma aldeia tcheca para fazer fortuna. Ao fim de 25 anos, rico, regressara, casado e com um filho. A mãe dele e a irmã tinham um hotel na sua aldeia natal. Para fazer-lhes uma surpresa, deixara a mulher e o filho em outro estabelecimento e fora visitar a mãe, que não o reconheceu quando ele entrou. Por brincadeira, tivera a ideia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o seu dinheiro. De noite, a mãe e a irmã assassinaram-no a marteladas e atiraram o corpo no rio. Na manhã seguinte, a mulher viera ao hotel, e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe se enforcou.A irmã atirou-se num poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado, era inverossímil. Por outro lado, era natural. De qualquer forma, achava que o viajante merecera o que aconteceu até certo ponto, e que nunca se deve brincar assim.

Assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura da minha ocorrência e a alternância da luz e da sombra, o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acaba perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam sentido para mim.

Quando um dia, o guarda me disse que eu estava lá há cinco meses, acreditei, mas não compreendi. Para mim, era sempre o mesmo dia que se desenrolava na minha cela, e era sempre a mesma tarefa, que eu perseguia sem cessar. Nesse dia, depois de o guarda ter saído, olhei-me na minha bacia de ferro. pareceu-me que a minha imagem ficava séria, mesmo quando tentava sorrir para ela. Agitei-a diante de mim. Sorri e e ela conservou o mesmo ar severo e triste. O dia acabava e era a hora de que não quero falar, a hora sem nome, em que os ruídos da noite subiam de todos os andares da prisão num cortejo de silêncio. Aproximei-me da janela e, à última luz, contemplei uma vez mais a minha imagem. Continuava séria, e que há de espantoso nisso, se nesse instante eu também estava sério? Mas ao mesmo tempo e pela primeira vez nos últimos meses,ouvi distintamente o som da minha voz. Reconhecia-a como a que ressoava há longos dias nos meus ouvidos e compreendi que, durante este tempo, falara sozinho. Lembrei-me, então, do que dizia a enfermeira no enterro de mamãe. Não, não havia saída, e ninguém pode imaginar o que são as noites nas prisões".

(Albert Camus, In: O estrangeiro)

Às vezes me sinto tão cansada, que tenho vontade de sair por aí, sentar em um desses meio fios, no meio da rua, qualquer uma, sob o sol quente da tarde, e chorar. Chorar enquanto o sol me queima, me transforma toda em cinzas. E que não reste nada, além de cenário. Meio-fio recém pintado de branco com uma porção pequena, concentrada, de cinzas quentes, úmidas, murchas. Por toda parte, sol aberto, amarelo, dolorido, lindo. E o som dos pássaros, indiferentes. Estes, sim, sinceros. 


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Música dos últimos tempos:
https://www.youtube.com/watch?v=2kRMdzfFf8M

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Pra você eu sempre direi sim...



"A primeira forma do amor sexual como paixão que apareceu na história e como paixão possível para qualquer pessoa (pelo menos das classes dominantes), como forma suprema de impulso sexual - o que constitui precisamente seu caráter específico - essa primeira forma, o amor cavalheiresco da Idade Média, não foi de modo algum amor conjugal. Pelo contrário, em sua forma clássica, entre os provençais, ruma abertamente para o adultério, que é cantado por seus poetas. A flor da poesia amorosa provençal são as albas, em alemão Tagelieder, cantos do alvorecer. Pintam com cores vivas como o cavaleiro deita com sua amada, mulher de outro, enquanto lá fora fica o vigia que o chama quando começa a clarear a madrugada (alba), para que possa escapar sem ser notado".

 (Engels, In: A origem da família, da propriedade privada e do Estado)


"Ela disse, te amo, vamos viver juntos.
Perguntei, não está tão bom assim? Cada um no seu canto, nos encontramos para ir ao cinema, passear no Jardim Botânico, comer salada com salmão, ler poesia um para o outro, ver filmes, foder. Acordar todo dia, todo dia, todo dia juntos na mesma cama é mortal.
Ela respondeu que Nietzsche disse que a mesma palavra amor significa duas coisas diferentes para o homem e para a mulher.
Para a mulher, amor exprime renúncia, dádiva. Já o homem quer possuir a mulher, tomá-la, a fim de se enriquecer e reforçar seu poder de existir.
Respondi que Nietzsche era um maluco.
Mas aquela conversa foi o início do fim.
Na cama não se fala de filosofia".

(Rubem Fonseca, Ela, In: Ela e outras mulheres)




O amor é um devasso mesmo.
Alguém já disse isso?
Com certeza.
Estou devassada de amor.
Pelo amor. Em amor. Com amor. Pré e pós-amor.
O amor não está no coração, está nos intestinos.
O coração parte. Os intestinos param.
As palavras precisam ser evacuadas.

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Falando dele, eis um novo (já velho) amor:

http://www.youtube.com/watch?v=6C-rLKiSS_o