quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Em quase 1/4 de século que vivi, poucas vezes disse eu te amo. Fora o Paulo, acho que duas pessoas ouviram um eu te amo de mim, provavelmente meu pai e minha vó, mas já faz um bom tempo! Eu não sei o que acontece comigo. Essa declaração é um problema para mim. Sempre foi. Eu não consigo me lembrar de nenhum bilhetinho do tipo dia dos pais ou das mães em que eu tenha declarado algum amor por alguém além de minha vó. E quanto aos poucos eu te amo que disse a ela, quando avalio o que sinto realmente, tenho dúvidas do que seja. Temo que o que eu sinta na verdade seja apenas apego. Passei a vida inteira pensando no dia em que essa mulher morreria. Minha vó. Isso me angustiou na grande maioria das noites, na hora de ir dormir. Pensar que ela podia não acordar nunca mais. Por toda a vida, saí deseperada de um emaranhado de sonhos que anunciavam essa morte.
Conheci minha vó e seus murmúrios já velhos. A boca cheia de dentes postiços presos numa ponte. Os cabelos ralos que ela insistia em tornar pretos à força de contrariar o óbvio: a persistência da natureza e a pressa do tempo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Signo

Do que restou, como compor um homem

e tudo o que ele implica de suave,

de concordâncias vegetais, murmúrios

de riso, entrega, amor e piedade?

Carlos Drummond de Andrade in Confissão


Ressignificar.

Sem meias voltas, como agora deve ser.
Eu me sinto uma otária. Eu ultrapassei o meu limite. O que me foi dado.
Eu tive vontade de xingar e espernear: palavras baixas, violências, coisas chulas!
Tratar-me como uma santa, “pobre santinha que me ama, assim, grátis, como nenhuma outra”. Não perceber a mulher que havia em mim, isso me deixou furiosa. Algum dia, até pensei que tivesse ouvido o som das palavras que escrevi correndo com pressa para fora das minhas veias de mulher: sussurros, soluços, frases ambíguas.
Minha novela.

As falas dele sempre foram curtas; tão curtas, tão curtas, que é de rir do trabalho imaginativo que empreendi.
Talvez eu estivesse precisando tanto amar, que se me acontecesse uma barata eu a engoliria.
Minha epifania: a barata-homem.
Eu conheço desde cedo a via por onde devo trafegar: mesmo no escuro.
Mesmo assim, eu me joguei onde fui parar.
Tem um trator esmagando a minha carne. Vou me transformando em asfalto todos os dias; as hesitações, os pedidos de perdão, as esperanças, tudo está comprimido e explode aos poucos sob a força dos pneus.
No final, tudo é simples.

Não há o que ressignificar.

domingo, 16 de agosto de 2009

Madre Teresa

“Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu”.

Clarisse Lispector in Perdoando Deus

Mulher, antes de tudo. E Deus sabe o quanto isso pode ser difícil para uma pessoa. Os animais e as plantas devem também fazer uma idéia do peso que isso tem, a mulher. Uma pessoa-mulher. Mãos de mulher. Seios de mulher. Umbigo de mulher. Pêlos de mulher. Vagina de mulher. Joelho de mulher. E a cabeça? A coisa redonda envolvida por fios complicados, pensamentos complicados e desejos.

Mulher. Encoberta ou descoberta. O mais são vulnerabilidades e vicissitudes. A mulher, antes de tudo, teima. Chora. Mente. Ri. Coloca gente no mundo. Procura a felicidade, acredita que é possível. Ah... a mulher... Mulher antes e depois. Não tem jeito. Mulher à direita e à esquerda. Mulher amarelo-pálida. Mulher perdida. Mulher querida. Mulher grávida. Mulher freira. Mulher celulite. Mulher que doa e dá. Escrita de mulher. Música de mulher. Transa de mulher. Coisa de mulher: homem, antes de tudo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Order & Progress


Será tão triste ficar sozinho, absolutamente sozinho,
e não ter sequer o que lamentar: nada, absolutamente nada...
pois tudo o que se perdeu, tudo aquilo era nada, um zero estúpido e redondo;
era só um sonho!

Fiódor Dostoiéviski in Noites Brancas


Eu quero sentar no meio fio branco
e fechar os olhos
enquanto o sol cura o pensamento e o coração.
O tempo que for preciso.