Em quase 1/4 de século que vivi, poucas vezes disse eu te amo. Fora o Paulo, acho que duas pessoas ouviram um eu te amo de mim, provavelmente meu pai e minha vó, mas já faz um bom tempo! Eu não sei o que acontece comigo. Essa declaração é um problema para mim. Sempre foi. Eu não consigo me lembrar de nenhum bilhetinho do tipo dia dos pais ou das mães em que eu tenha declarado algum amor por alguém além de minha vó. E quanto aos poucos eu te amo que disse a ela, quando avalio o que sinto realmente, tenho dúvidas do que seja. Temo que o que eu sinta na verdade seja apenas apego. Passei a vida inteira pensando no dia em que essa mulher morreria. Minha vó. Isso me angustiou na grande maioria das noites, na hora de ir dormir. Pensar que ela podia não acordar nunca mais. Por toda a vida, saí deseperada de um emaranhado de sonhos que anunciavam essa morte.
Conheci minha vó e seus murmúrios já velhos. A boca cheia de dentes postiços presos numa ponte. Os cabelos ralos que ela insistia em tornar pretos à força de contrariar o óbvio: a persistência da natureza e a pressa do tempo.
Conheci minha vó e seus murmúrios já velhos. A boca cheia de dentes postiços presos numa ponte. Os cabelos ralos que ela insistia em tornar pretos à força de contrariar o óbvio: a persistência da natureza e a pressa do tempo.

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