Escrevi em 19/04/2016, 12 dias após a morte de minha vó.
A minha vó, Dona Raimunda, só pôde frequentar a escola até a
quinta série do Ensino Fundamental, mas valorizava muito a Educação, o
estudo e a escola. Abandonou o ensino formal porque morava em Caxias,
uma cidade do interior do Maranhão e, após a quinta série, seria
necessário transferir-se para uma escola distante de onde residia. A mãe
não consentiu, pois a menina era sua ajudante na pequena mercearia que a
família mantinha e o seu período de ausência comprometeria o bom
funcionamento do comércio. Sua irmã, Terezinha, que era a filha caçula,
contou com a generosidade da mãe e conseguiu se formar professora
normalista. Minha vó sentia muito orgulho da irmã, que, de fato, foi
reconhecida e premiada na cidade natal por ser uma excelente professora.
Embora sem ter tido chance semelhante, o gosto pelo estudo
permaneceu aceso em minha vó e ela procurou transferi-lo para os filhos,
que, à custa de seu trabalho duro já em Brasília, puderam aproveitar a
infância e a adolescência estudando, e não trabalhando, como ocorreu a
ela. Exceto pelo filho que adotou aqui, os outros se formaram no nível
superior e os netos seguem o mesmo caminho.
Eu estive muito próxima de minha vó durante grande parte de
minha vida e dela recebi bastante estímulo para estudar. Ela dizia com
frequência frases como: "minha filha, quem estuda vence", "Kessinha, não
se vence sem estudo", " força e coragem para estudar, siá", e, com o
salário de sua aposentadoria, fez o que foi possível a ela para
incrementar os meus estudos e/ou facilitá-los. A minha vó participou do
primeiro e do último evento de formatura que eu vivenciei. Neste último,
foi quando graduei-me professora de Língua Portuguesa e Respectiva
Literatura. Tenho já quase dez anos de formação e há três venho
lecionando de forma ininterrupta na rede pública de ensino do DF. Não
posso me comparar à professora que minha tia foi, mas me identifico com
as do tipo que gostam do que fazem e, modéstia à parte, procuro exercer
bem o ofício, embora isso não venha ao caso. O fato é que minha vó tinha
também um certo orgulho da netinha professora, embora haja na família
uma neta doutora, pela qual, com razão, ela também se sentia muito
orgulhosa.
Minha vó foi hospitalizada no fim do mês de março e faleceu
há menos de quinze dias. Nesse período, no país, os ânimos de certos
segmentos da população estavam inflamados, por um lado, pelo temor e,
por outro, pelo clamor do impeachmant da presidenta Dilma. Ontem, a
Câmara dos deputados decidiu pelo impedimento. Hoje, nas redes sociais,
vi uma série de xingamentos e palavras ofensivas contra a presidenta, o
PT, os parlamentares que votaram de forma contrária ao impedimento, os
artistas e intelectuais que discordam disso. Palavras grotescas e
odiosas, várias vezes, carentes de justificativa válida, se é que se
pode dizer assim, como se um único palavrão pudesse sintetizar e
desqualificar simultaneamente toda a história de vida da mulher que foi
escolhida pela maioria da população a primeira presidenta do país, por
duas vezes consecutivas. Uma mulher que, na verdade, tem muito mais
história de mulher, de filha, de mãe, de avó, de estudante, de
trabalhadora, de militante política... do que de presidente do país.
Como o luto por minha vó está recente, não pude deixar de
associar tudo o que está ocorrendo e a atmosfera que os acontecimentos
têm gerado à minha vó, à sua história, à sua fé na Educação, no estudo,
na escola. Sinto ainda mais que é preciso aproveitar o exercício do
ofício para educar as pessoas. Educar em um sentido que permita às
pessoas apropriarem-se da história da nação como conteúdo visceral,
integrante de cada um, e não como conteúdo estático, folhas do livro didático. Educar de um jeito que se leia essa história
como se a estivéssemos tateando, sentindo na carne cada grânulo, cada
pedra, cada foice, para que venha à tona, de fato, identificação e
incômodo. Educar em um sentido que permita a interiorização da
alteridade; que desperte a humanização das ações e do pensamento; que
suscite o respeito às pessoas frente a elas e frente a qualquer
dispositivo digital; que convoque o respeito e o diálogo, e não a
violência, a agressão.
Herdei de minha vó o gosto pela Educação, o estudo, a
escola. Mas o que eu espero mesmo é que esse interesse seja motivo e
veículo de humanização para mim e para os estudantes que eu encontro
todos os dias nas salas de aula e, principalmente, fora dali, nas
interações da vida real e digital. A minha vó não pôde avançar seus
estudos formais, como desejou, mas foi, para a família, uma pessoa
notável por seu entendimento do mundo, por sua compreensão da potência
transformadora da Educação. É evidente que não é qualquer educação que
carrega essa potência. Há no mundo, e bem perto da gente, outras
espécies de "educação" que norteiam práticas deploráveis dos seres
humanos e que provocam lástima e vergonha para os que as assistem ou
delas são vítimas. O sentimento atual, para mim, em razão do falecimento
dessa vó inspiradora, é de desolação. O mesmo que sentem muitos ao meu
redor após a vitória do apelo pelo impedimento da presidenta Dilma.
Curiosamente, o país que enaltece a Educação como solução de seus
problemas sociais, assiste de camarote à expulsão da presidência daquela
que adotou como lema de governo a fórmula-promessa: "Brasil: pátria
educadora".

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