Ultimamente tenho me sentido um daqueles
bonecos-jogadores do pebolim: chutando, chutando, chutando uma bola desvairada, de forma inconsciente.
Girando de cabeça para baixo a todo instante e emergindo novamente para girar
outra vez e chutar para toda parte. Minhas emoções estão um vai e vem. Meus
hormônios riem de mim, na certa.
O ímpeto de coragem que brotou em mim no ano passado
se foi e há só rastro dele. Sou a covarde de sempre com ligeiros delírios de
coragem. A mulher de ação que por ventura vejo em mim, às vezes, para certas
situações, está enfaixada como uma múmia. Não consigo me mover. Sinto-me
completamente enfastiada, enauseada.
As palavras não adiantam. Não resolvem. Não me
consolam. As palavras, mais uma vez, significam nada. Às vezes, sinto tanto
ódio das palavras, a ponto de desejar que ficássemos todos mudos para sempre. Se tivesse talento e conhecimento, escreveria o meu ensaio sobre a surdez. Tanto falatório em toda parte! Somos um bando de papagaios repetidores das
mesmas conversas. Consciência de papagaios. Vozes de papagaio. Não suporto
ouvir a minha voz, às vezes.
Sinto, por alguns momentos, uma vontade imensa de
falar, monologo mentalmente sobre um assunto por uns trinta, quarenta minutos
diretos e penso em externalizar tudo o que fiquei pensando. Quando estou para
dizer, constato que não vale nada dizer coisa alguma. Não serve
para nada. Neurônios desperdiçados. As palavras da vida real são inúteis. As
palavras literárias, fluidas, escorregadias, fictícias, são mais firmes que as
da vida real. Deter-me pensando nisso também me enfastia um pouco. Tudo é
falso.
Às vezes, penso
que deveria fazer um trabalho missionário, como o dos Médicos sem Fronteiras,
talvez. Conviver com o sofrimento físico de muitas pessoas, com a miséria
extrema, em um deserto. Curá-las, alimentá-las, consolá-las. Ater-me ao
sofrimento alheio. Assim, eu ficaria sem brechas para pensar em bobagens. Eu
relativizaria isso que chamo "meu sofrimento". Cultivaria o espírito,
falaria menos, suportaria mais.
Meu descrédito nas palavras é antigo. Eu confio muito
nas palavras, por isso, a desilusão. As palavras desequilibram o mundo, os
hormônios da gente. Jogam com a gente, como no pebolim. Depois, riem de nós, desdenhosas, cínicas, como as hienas e
as bruxas. Eu tenho medo de dizer muitas palavras. Já disse muita merda por aí
e, bem feito, tenho sido retribuída com outras tantas merdas..


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